07 novembro, 2012

Momento Nosso

Conto inspirado na música ''Momento Nosso'' do grupo Pablo Life. (Clica para ouvir)

Ainda são duas da manhã, mas para mim a noite está mais que terminada. Pego nas chaves do carro e dirijo-me para a porta de saída. Uma moça olha para mim de modo provocante, como se quisesse devorar-me vivo. Há uns meses atrás eu teria parado e numa fracção de segundos estaria com ela no meu apartamento… Um filme de romance, luzes apagadas, climinha de cinema, bebidas gentilmente misturadas e algumas palavras sussurradas no ouvido seriam o suficiente fazê-la perder o juízo e o vestido. Mas hoje eu apenas olhei para ela e fiquei com pena de levá-la comigo, porque sabia que na manhã seguinte ela iria acordar apaixonada, eu iria dizer que para mim não significou nada e ela iria embora frustrada, como aconteceu com todas outras. Menos com a que ensinou-me a escolher bons lençóis para deitar-me com as outras.

Foi numa sexta-feira que eu a conheci, na minha discoteca favorita. Ela estava com um rapaz por perto e mais duas amigas não tão bonitas quanto ela, aliás, não havia naquela noite mulher que chegasse aos calcanhares dela. Ela era morena cor de jambo, usava uma legging preta com detalhes metalizados que lhe realçava as curvas lascivas e um top dourado que chamava a minha atenção para o piercing que ela tinha no umbigo. Por cima do salto plataforma, ela e uma das amigas dançavam de costas uma para a outra em movimentos ritmados, quadris e ombros em sintonia, como se o mundo fosse só delas. A outra amiga tirava fotos e os meus olhos não conseguiam desviar a atenção daquela morena e de como ela ficava perfeita em todas as posições, ela espalhava uma sensualidade singular e enfeitiçadora, mas diferente das outras vezes, o meu desejo não foi somente levá-la para a cama, foi dançar colado a ela,
saber mais sobre ela e levá-la para um sítio onde pudéssemos estar em paz a conversar…

Aproveitei o momento em que ela e o amigo foram buscar bebidas e aproximei-me também:
– Um copo de vodka, sem gelo por favor! – Ela pede, no tom mais sexy que se pode imaginar.
Eu olhei para ela e de perto notei que ela é mais bonita do que eu imaginava, olhos negros e sedutores, ela tem uma voz doce que não combina com a postura de ‘’mulher fatal’’ que ela passa. Encostei mais perto de onde ela estava e para começar conversa perguntei:
– Qual bebida me aconselha?
– Tenho cara de bêbada, por acaso?
– E quem disse que só os bêbados entendem de bebidas?

Ela olhou-me com desdém e logo a seguir desviou o olhar para o amigo dela que fez uma cara de insatisfação pela minha presença.
O barman chega com o copo de vodka, ela mira o fundo escuro do copo e dá um gole prolongado, quase obsceno, como se quisesse mostrar o quanto era liberal e ousada. Eu olho para ela, e estrategicamente digo:
– Só perguntei aquilo porque tu és famosa por aqui.
Dou meia volta e quando ia dar o terceiro passo ela me puxa pela camisa:
– Famosa? Como assim? – Pergunta, confusa.
– Sim, todos aqui só falam de ti e das tuas amigas. Dizem que vocês param esta discoteca todas as vezes que aparecem.
Ela faz um olhar de desprezo, mas pelo olhar eu noto que ela sentiu-se envaidecida pelo meu comentário.
– Talvez seja verdade. – Respondeu-me enquanto dava outro gole.
– Eu só digo a verdade. – Respondi, enquanto continuava a dar os passos que ela interrompeu. Enquanto eu andava para voltar ao meu lugar, a imagem dela perseguia-me a mente e a minha imaginação fértil criou mil cenários e diálogos. Mas eu já tinha notado que ela era inalcançável e convencida, a típica mulher independente que acha que pode dominar o mundo em cima de um salto alto. E na verdade ela podia.
Perdido nos meus pensamentos, eu ouço uma voz atrás de mim:
– Hey, espera! Eles preparam uma caipirinha óptima. – Sugeriu, querendo se redimir. Eu sorri e virei para trás. Peguei na mão dela e sentamos nuns bancos perto do bar, pedimos as bebidas e metemos conversa em dia, ela perguntou o meu nome mas não disse o dela, perguntou-me sobre os meus sonhos mas não contou-me os dela.

No prolongar da conversa ela dispensou os amigos, disse que tinha outros planos para aquela noite. Normalmente eu fazia os planos e elas seguiam-me, mas com aquela morena foi diferente. Ela perguntou-me sobre o tipo de festa que frequento e quando eu abri a boca para responder, ela surpreendeu-me com um beijo de travar a respiração, pegou na minha mão e guiou-a pelas suas curvas sedutoras, ela tinha um cheiro doce e natural, ela era dessas mulheres independentes e desprovidas de pudor, ela é do tipo que não precisa de muito para ser demais… Ela é a dona das palavras que ainda não foram ditas…

Quando o clima começou a esquentar e o direito à privacidade começou a atormentar, eu peguei na mão dela e fomos em direcção ao carro, ela ligou o leitor de CD’s e meteu a tocar WildOnes do Florida enquanto cantava em alto e bom som. Ela tinha a alma livre e selvagem, algo novo para mim, ela era diferente das outras, e eu gostava disso.

Chegamos no meu apartamento, e num único gesto eu abri o ziper da legging dela, toquei no seu cabelo macio e levemente cacheado, o corpo dela é definido, bom de se tocar. Deitamos na cama e nos amamos intensamente, foi como se nos conhecesse-mos há anos. Tudo há minha volta ficou invisível perante a vontade de tê-la por alguns instantes.
Aquela noite passou, e quando acordei, ela já não estava na cama, fui até a cozinha e encontrei a mesa do pequeno-almoço posta e um bilhete na porta da geleira que dizia:
‘’Bom dia, adorei a noite de ontem. Espero que gostes do pequeno-almoço que preparei para ti. Já sei onde moras, qualquer coisa apareço por aqui. Bjinhos, Monalisa.
OBS: Deixei uns lençóis novos para meteres na cama.’’


Por alguma razão que até hoje desconheço, ela foi a única que ficou na minha cabeça por mais de 3 meses. Depois daquela manhã procurei-a por todas as noites, mas não a vi e ninguém a tinha visto. Só sei o nome dela, não sei onde ela mora. A única coisa que sei é que ela seduz sem piedade e tem a liberdade de ter quem ela quiser. Depois disso, eu só vou para a discoteca procurar por ela, já não consigo beber outras bebidas para além da que ela me aconselhou e já não consigo ficar com outras mulheres, porque só ela sabe escolher lençóis. Quero vê-la de novo e não sonho com outra coisa senão um próximo encontro.
Eu sei que ainda irá haver outro momento nosso.

Escrito por: Rosa Soares