21 maio, 2013

Camille. Une très belle femme

Camille era filha de uma amiga da minha mãe dos tempos da faculdade que casou-se com um milionário francês. Camille nasceu e cresceu em Paris, mas por causa da mãe conseguia perceber e dizer algumas palavras em Português.

Elas estavam hospedadas em minha casa, chegaram em Julho e iam embora em Agosto, quando as aulas de Camille começassem.

Camille tinha a minha idade e tinha passado para o último ano do ensino médio. Nós nunca conseguimos manter uma conversa por mais de 10 minutos, o meu Francês nem sequer chegava ao nível iniciante e o Português dela estacionava lá. Apesar disso nós tinhamos muita afinidade, podiamos ficar horas calados sem nos sentirmos desconfortáveis, o facto de estarmos juntos era um calmante.

A maioria das saídas eram com a família toda, mostravamos a cidade, as praias, os restaurantes e sobretudo os museus, eu tentava explicar-lhe a história de cada peça com os meus gestos desajeitados. Ela não percebia e morriamos de rir pelo meu papel de parvo.

Camille era indepentende, mesmo num país estranho, ela saía sozinha, fazia compras, ia ao cinema, ao teatro, e voltava com histórias mirabolantes de mal entendidos que aconteciam entre ela e os comerciantes.
Ela era inovadora, hipster, criadora de tendências... Usava uma coroa de flores no cabelo e dizia que era para atrair borboletas. Nem demorou uma semana para as meninas da minha rua começarem a imitar. 

Na última semana de Julho fomos para o Festival Internacional de Música, estava um piano a disposição dos presentes, ela perguntou qualquer coisa em francês para a mãe que acenou de forma positiva com a cabeça. Camille correu para o piano, estalou os dedos, fechou os olhos e começou a tocar Charles Valentin Alkan - Scherzo Diabolico, deixando todos maravilhados, de olhos arregalados e queixo caído. 

Assim que terminou de tocar, chuveram aplausos e propostas de senhores da alta sociedade, ela balançavou a cabeça em negação e a mãe puxou-a para irmos embora.

― Tu tocas tão bem, Camille! És muito talentosa.
Elogiei, sem esperanças que ela entendesse.
― Merci, Fernando. 
Oh... Ela entendeu.
Sorriu e respirou fundo, depois de alguns segundos disse: ―Je pense que je t'aime.
Eu não sabia o que aquilo significava, mas deduzi que fosse uma forma de reforçar o ''Merci'' do agradecimento. Sorri e fiz um gesto carinhoso com a mão no rosto dela.

Depois daquela noite ela disse  ''Je pense que je t'aime'' muitas vezes e eu só pensava ''Ah, esses estrangeiros agradecem sem motivo''.

Passaram-se 5 dias e já era Agosto, Camille e a mãe dela foram embora, não consegui despedir-me dela porque estava na escola. Mas quando ela chegou em Paris, enviou-me um cartão postal.

“Je ne sais pas si je trouve mes yeux dans tes yeux. Je ne sais pas adoucir ma douleur avec vous, mais où je vais prendre votre regard et où tu ma douleur.”

Senti-me embaraçado por não conseguir ler o que estava escrito, e decidi inscrever-me no curso de Francês. A duração era de 3 meses. Comecei, continuei e terminei.

No fim do curso consegui traduzir o que ela dizia no cartão:
“Já não sei se os meus olhos encontrarão os teus olhos. Já não se adoçará junto a ti a minha dor, mas por onde for levarei o teu olhar e para onde fores levarás a minha dor.”

No fim do curso aprendi que:
''Je pense que je t'aime'' não tem nada a ver com  agradecimentos, mas significa: ''Eu acho que te amo.''

No fim do curso fiquei apenas com um arrependimento:
''Ah, quem me dera ter aprendido Francês há mais tempo''.