17 maio, 2013

Clarisse com dois ''S''

Poucos sabiam da minha paixão por ela, e quando digo ''poucos'' falo dos leitores de um blog medíocre que eu escrevia no 10º ano. Apaguei logo que terminei o ensino médio, porque não recebia visitas nem comentários. O que há para comentar sobre a vida de um adolescente expert em informática e apaixonado por uma jovem-adulta alta e magra? O resultado dessa equação era sempre o mesmo. NTS. Sem Solução.

Ela tinha cabelos crespos, pouco rebeldes, livres ao vento. Tinha umas sardas delicadas no rosto e um tom de pele que parecia mel. Ela era doce e amarga, tinha um sorriso que traduzia tristeza. Já tinha sido magoada por muitos homens, e como quem acredita em contos de fadas, continuava a procura de alguém para fugir de cavalo branco numa tarde ensolarada.

Ela ja encontrou príncipes mas depois do beijo eles viravam sapos. Tinha esse azar de algumas coisas acontecerem ao contrário. Mas ela não desistia, parecia até gostar de sofrer, eu sempre dizia para ela procurar um pouco de felicidade com alguém que gostasse dela de verdade, e encaracolando os fios crespos com a ponta dos dedos ela respondia

 Isso não existe mais, Fernando. Estamos no século 21. 

'' Pois é, século dos amores não correspondidos.'' Essa foi uma das coisas que eu nunca disse.

Ela deitava no meu colo e contava sobre as suas relações, umas em que estava sozinha, outras que eram um triângulo qualquer coisa menos amoroso. Uma das vezes que ela veio aqui em casa, tinha as lunetas inflamadas de tanto chorar, descobriu que o fulano andava com a beltrana, porque uma outra fulana tinha espalhado na rede social. Ah! A culpa era sempre das fulanas. Ela abraçou-me e chorou no meu ombro. Não limpei as suas lágrimas, eu nunca limpo. Sentimento é para ser livre, lágrimas devem fazer o seu percurso! Deixei que ela chorasse e esvaziasse o peito. 

Ela via em mim uma espécie de salvação.
E agora? E agora Nando?  Perguntava sempre que as coisas corressem mal.
'' E agora fica comigo. Eu sou pequeno,mas prometo nunca te fazer chorar.'' Essa foi uma das coisas que eu nunca disse. 

Ela gostava de mim também, gostava muito. Dizia que eu era o irmão mais novo que nunca teve.
Olha só que trágico!  Eu tinha 15 anos e ela tinha acabado de fazer 20.

Nós nos conhecemos quase sem querer, ela estava maluca atrás de alguém que arranjasse o seu computador, quando ouviu sobre mim na rádio do bairro.

''Tum tum tum tum tum tum...''

Foi assim que ela bateu a porta da minha casa, como se estivesse a fugir da morte, sem sentido de ritmo. Ela era tão atrapalhada.

Logo que eu abri a porta ela disparou:

 Tenho um vírus no computador.
 Eu cuido disso. Respondi.

Depois falamos mais vezes, primeiro ela perguntava-me sobre computadores e smartPhones, depois contava um ou dois segredos da sua vida desastrosa, eu sorria sem graça e nunca sabia o que dizer, mas com o tempo fui aprendendo. Ela tinha algumas crises existenciais nos dias de TPM. Eu comprava chocolates e comíamos no sofá enquanto jogávamos ''Call of Duty''.

 Sabes... Tu és o único rapaz que me oferece chocolates.
 E tu és a única rapariga que joga comigo. 

Sorriamos e comiamos mais um quadradinho, estávamos quites.

A noite falávamos ao telefone, trocávamos mensagens no whatssap e gostavamos das fotos um do outro no instagram. O dela era cheio de fotos de unhas, cabelos, bebidas, fotos de conversas, sapatos e partes do corpo. Sim! Ela gostava de tirar fotos semi nua.

 Tu não precisas exibir o corpo!

 Mas eles precisam disso, Nando. Eles só amam o meu corpo. 

''Então esquece eles.'' Essa foi uma das coisas que eu nunca disse.

Ah, ela era muito bonita mas já sofreu tanto! Sofreu sem necessidade, sabes? 
Sofreu pelo Pedro que gostava da Joana, sofreu pelo Renato que contou detalhes íntimos deles para o bairro todo, sofreu pelo Ricardo que não assumia o namoro, e até já sofreu pelo Rui que a espancava.

Ela gostava tanto de sofrer que achava estranho quando alguém gostasse dela de verdade, e não falo só de mim. O Juninho da Rua 27, fazia tudo Por ela, mandava flores e cartões bonitos, ele ainda teve algumas vantagens, conseguiu uns beijos dela e nada mais do que isso. Quando eu perguntei o motivo de ela não namorar com ele, respondeu:

 Ah, o Juninho é bom demais para ser verdade.

'' Por que é que tens a mania de achar que mereces pouco? Por que é que subestimas quem gosta de ti?''  Essa foi mais uma das coisas que eu nunca disse.

Ela era uma boa moça mas preferia fingir ser má. Já andou com muitos moços aqui do bairro e tinha fama de... Aquela palavra feia... Tu sabes! 

Mas eu não ligava para o que diziam, eu sabia que as necessidades dela não eram físicas.
Eu não ligava para a reputação. Eu gostava dela, mas eu era apenas um expert em tratamento da informação por meios automáticos e ela era uma moça alta e magra de cabelos crespos cor de mel que gostava de tirar fotos semi nua.

Da última vez que ela veio aqui em casa, comemos chocolates, vimos um filme e jogamos
''Call of Duty'', de repente ela parou o jogo, olhou para mim e sorriu:

 Tu és o irmão que eu nunca tive Nando.
 Tu és uma boa amiga.
 Prometes nunca me abandonar? 
 Prometo, Clarisse. Prometo!

Sim o nome dela era Clarisse, e não Clarissa ou Clarice. O nome dela era Clarisse com dois ''S''.