20 maio, 2013

Mary Jane não era Maria Joana

Era uma madrugada enfadonha, eu estava sem sono e com poucos planos para a manhã seguinte. Vi a solução para o meu tédio, numa sala de chat. Li a lista dos participantes e escolhi o nome mais bonito que encontrei: ''Mary Jane''.

Fernando Santos diz: Olá. Tudo bem?
Mary Jane diz: Oi. Comigo as coisas nunca estão bem. E contigo?
Fernando Santos diz: Normal.
Mary Jane: Normal não é bom sinal.

Eu não sabia mais o que dizer, e ela também não falou mais nada. Então tentei puxar conversa com outras pessoas mas ouvi o som de uma nova mensagem.

Mary Jane diz: Suponho que tenhas te assustado comigo. Eu sou estranha, mas sou fixe. Juro!

Eu respondi, disse que não estava assustado... Menti. Ela disse que ficava mais aliviada assim. Foram longas horas de boa conversa, falamos sobre música e futebol, ela disse que era morena, alta e tinha cabelo preto. Contou-me que fumava marijuana e cigarros, eu contei-lhe que era nerd e tinha uma ONG de combate às drogas. Falamos até amanhecer. Trocamos números de telefone e alguns links.

Na manhã seguinte, eu recebi uma mensagem no telemóvel, eram 9 horas.

''Estou na escola, não aguento mais isso. Vem buscar-me''

Ela tinha me dito onde estudava, eu ainda não tinha carro, a escola era apenas duas ruas depois da minha, fui de bicicleta. Eu estava com um casaco e calça olímpica, fazia frio. Quando cheguei lá, não vi nenhuma morena de cabelo preto. Apenas uma moça loira que estava com um cigarro entre os dedos. Ela aproximou-se de mim.

― Tu deves ser o Fernando. Mary Jane. Satisfação.
E subiu na bicicleta.
― Mas... Tu disseste que eras morena, alta e que tinhas cabelo preto...
― A Mary Jane é assim. Eu não...
― Ahn? Como assim?
― Não faças muitas perguntas. Leva-me daqui.

Não tinha muitas opções de onde ir com uma bicicleta, perguntei se ela tinha alguma preferência, disse que podíamos ir para a minha casa. E fomos... Levei-a para  a cave, ela pediu-me para usar o computador, abriu o youtube e meteu a tocar umas músicas deprimentes da Lana Del Rey, abriu a mochila e tirou um maço de cigarros, Malboro, se não me engano.

― Mas... Isso faz mal.
― Não,Fernando. Isso cura o mal.

De repente ela começou a tirar o uniforme, ficou só com um top e cuecas. Tinha um piercing no umbigo.
Para mim aquela era a visão mais inacreditável do mundo, eu estava com uma loira semi-nua a fumar deitada no sofá da minha cave. Deu dois tragos no cigarro e quando expulsou o fumo, começou a contar sobre o pai que nunca tinha tempo para nada, a mãe que gastava tempo demais com a vida alheia e sobre ela que tentava assimilar a situação. E nunca conseguia.

Quando era quase meio dia e meia, fui deixá-la na escola, o motorista estava a espera dela. Maybach Landaulet. Nem acreditei que estava na minha cidade. Mary Jane tinha muito dinheiro, mas era tão pobre...

Nós repetimos aquele ritual todos os dias depois daquele, eu ia apanhá-la as 9 da manhã e devolvê-la ao meio dia.

― Eu não acho que devas continuar a perder aulas. Isso é errado.
Eu aconselhava.
 ― Errado é ser infeliz.
Ela respondia, acendendo um novo cigarro.

Ela era estranha e eu gostava daquilo. Apesar dos problemas que tinha com a nicotina, era a rapariga mais suave que já conheci. Depois de três cigarros, ela ficava mais dócil que a brisa do entardecer. Tirava a roupa sempre que ia lá  para casa. Eu nunca tive segundas intenções.

 ― Fernando, tu és gay?
 ― Ah, Mary. Que pergunta. Claro que não.
 ― E por que é que que tu não te sentes atraído por mim?
 ― Eu sinto.
 ― E por que  é que nunca tentaste nada? Eu fico quase nua no teu sofá, se fosses um homem de verdade saltavas-me logo para cima.
 ― Eu respeito-te Mary Jane. Só por isso. Para ser um homem de verdade é preciso ter calma.

Ela sorriu, aumentou o volume da música e voltou a atenção para os seus cigarros. Aquele dia não conversamos muito, só quando fui deixá-la na escola, deu-me um beijo no rosto e disse:

 ― Fernando, tu és mais homem que todos eles juntos.
Apontou para os rapazes na porta da escola.

Depois disso a nossa relação evoluiu, já não era só uma amizade. Roubavamo-nos beijos e ficávamos abraçados no sofá, eu ouvia os lamentos dela com tanta atenção que até esquecia de mim. Na despedida dávamos dois ou três amassos no corpo, ou eram cinco? Ah, isso não importa. Nós sabíamos o que éramos um para o outro e não precisávamos de um título para ter a certeza.

Mary Jane não gostava de discotecas. Era essa a única coisa que tínhamos em comum.
― Esses lugares estão sempre cheios de pessoas vazias.
Ela dizia e eu concordava.
Chegou uma época em que eu passava na escola e ela já não estava na porta a minha espera, o telefone dava fora de área e no chat ela já nem entrava. Passaram dois meses e decidi entrar na escola dela. Perguntei às pessoas que estavam no pátio e ninguém conhecia nenhuma Mary Jane. Fui para a secretaria e disseram que não tinham nenhuma aluna com aquele nome. Uma das secretárias perguntou-me qual era a classe dela, e deu-me um documento com a foto de todos alunos daquela turma. Encontrei o rosto dela, mas o nome era outro.

  ― Maria Joana do Carmo Assunção, Maria Joana do Carmo Assunção.
Repeti mentalmente.

Perguntei sobre a tal Maria Joana e eles disseram-me que era uma aluna tóxico-dependente que desenvolveu um quadro de esquizofrenia, já não frequentava a escola porque os pais tinham a mandado para um hospital psiquiátrico no centro da cidade.

Fiquei em choque. Perguntei se eles tinham o endereço. Disseram que sim. Deram-mo. Chamei um táxi e fui até lá. Os pacientes só podiam receber visitas da família, então fiquei no pátio do hospital a espera da hora dela de sair para apanhar ar.

Ela estava mais magra, pálida, usava roupas brancas e o cabelo preso num rabo-de-cavalo. Logo que me viu, correu e abraçou-me. A enfermeira tentou segurá-la, mas falhou.

 ― Fernando!
Abraçou-me e começou a chorar.
 ― O que foi, Mary?
― Tudo... Foi a paz, foi a alegria... Não há mais nada aqui dentro.
Meteu a mão no peito.
 ― Alguma vez existiu alegria?
Questionei.
―  Para mim não, mas para a Mary Jane sim. Ela não é maluca como eu. Tu gostavas dela, não?
As lágrimas escorriam e soluços brotavam da sua garganta.
― A Mary Jane é uma personagem que tu criaste para fugir da realidade.
― E eu não podia fugir para sempre?
Perguntou, os olhos enchiam-se de mais água.
 ― Não. Tu não podes adiar a realidade.
 ― Porquê? Nós somos tão jovens, Fernando!
 ―  É verdade, Maria Joana. É verdade. ― Fiz uma pausa. ― Nós somos tão jovens para ter tantos problemas!

Eu gostava de uma moça que não existia...
Ela vivia uma vida que não lhe pertencia...
'' Errado é ser infeliz''.
Ela dizia.
'' Errado é ser a Maria Joana''. Eu pensava.

Depois desse dia nunca mais nos vimos, mas a Mary Jane ficou viva para sempre nos meus pensamentos. Mary Jane gostava de marijuana mas não era a Maria Joana.