06 junho, 2013

25 de Dezembro de 1998

O Pai Natal foi muito mau comigo, embora eu nunca tenha sido um bom menino, merecia continuar com a única pessoa que tornava a minha vida excitante nas noites monótonas de Dezembro. Eu não te via como um objecto, não exactamente, eu  sabia que tu tinhas sentimentos e não nego que usei isso como desculpa para ir e voltar sempre que me apetecesse. Quem ama perdoa. E tu perdoaste enquanto amaste ou amaste enquanto perdoaste.

Eu nem sabia que o amor acaba, e descobri isso da forma mais breve e dolorosa.
25 de Dezembro de 1998.
Arrumaste a casa daquele jeito bonito que só tu sabes fazer, transformaste as coisas sem mudar nada de lugar, ligaste as luzes da árvore de Natal, embrulhaste uns presentes e foste embora. 

''Preciso matar o amor que sinto por ti, antes que ele me mate.''

Esta frase causou um terramoto no meu coração, um tsunami nos meus olhos e de um momento para o outro as minhas certezas trocaram de lugar, os meus receios mudaram de casa e aquele jeito selvagem de rapaz que quer curtir a vida, pediu demissão.

25 de Dezembro de 1998.
Foi o dia em que acabou. O dia em que descobri que o amor não é qualquer pessoa que pode encontrar e quando encontramos temos que saber reconhecer, e é aí onde está o problema. Nós nunca sabemos reconhecer o amor. Desconfio que ele use algum tipo de máscara, uma capa de invisibilidade que nos impeça de perceber a sua presença. 

Eu sempre fui embora. Já te deixei sozinha no cinema, no restaurante, na garagem, no carro, na cama, na vida. Mas eu voltava. Podia demorar meia hora, mas eu sempre voltava. Lembras? Eu achava que o importante era voltar, mas não. O importante é ficar. Ficar até onde o amor suportar. E o teu suportou até 25 de Dezembro de 1998.

Ainda tentei te pedir para ficar, jurei que as coisas seriam diferentes, eu podia te deixar sozinha na livraria ou na esquina da tua casa, mas eu nunca mais te deixaria sozinha na vida, o meu coração seria teu para sempre, iria mudar para o teu peito. Isso não era o suficiente? 
''Promessas nunca foram o suficiente.'' Tu disseste antes de fechar a porta e aquele foi o Natal mais triste de todos. As noites de Dezembro são sempre monótonas, frias que até dói. Já não estavas aqui para preencher o lugar vazio na cama, para aquecer lençóis e fazer barulhos excitantes de madrugada. Eu gostava da forma com que arrumavas a minha casa e de como aquele vestido vermelho deixava o teu corpo mais bonito, até os vizinhos ficavam na janela para te ver estender a roupa no quintal. Eu gostava daquele teu sorriso matinal, gostava das tuas comidas e gostava mais ainda do facto de nunca desistires de mim. 
Mas gostar nunca foi o suficiente. Não é mesmo?
O vizinho do lado também gostava de ter um vislumbre das tuas pernas bronzeadas, e nunca teve.

Eu era o único. Na rua toda, na cidade inteira, no país completo, e no mundo afora. Nunca ninguém tinha tocado numa parte do teu corpo. Devia me sentir privilegiado, amado, ou algo do gênero, mas ao contrário... Senti-me acomodado! Tu eras minha, tu me amavas e bastava.
Podia ir e voltar a hora que quisesse, tu estarias na sala com roupa interior e avental, ou então no quarto, com uma lagerie vermelha. 

 25 de Dezembro de 1998. 
Foi o dia em que percebi que amor é como uma flor. Precisa de cuidados diários, senão morre.

Eu achava que o importante era voltar, mas não. O importante é ficar. Ficar até onde o amor suportar.