14 junho, 2013

Ninguém precisava saber

De todos os meus quebra-cabeças o amor sempre foi o mais difícil. Eu nunca soube juntar as peças certas para chegar a sua resolução. Incompatibilidades. Desestruturações. Destruições.

De todas as minhas certezas a mais certa era que nós seriamos amigos para sempre. De sempre, e o infinito era o nosso destino. Tu sempre estiveste perto nos momentos de frustração, nos momentos de depressão profunda. E mesmo sem entender, tu permanecias ao meu lado, e aquele era o único momento em que eu me sentia realmente amada. Eu nunca tive muitos amigos, nunca fui de me socializar, porque eu não me enquadrava em nenhum grupo social, tu chamavas isso de drama mas em momento nenhum me julgavas. Tu sabias quem eu era e não te importavas com as minhas falhas.

Quando escurecesse eu via a luz em ti, tu eras o meu verão no inverno. Um que eu queria levar para sempre.
E levei...

O único momento do dia em que eu era realmente feliz era quando falasse contigo ou escrevesse para ti. Aparentemente a minha vida era perfeita, mas só tu e eu sabíamos o quanto ela era um merda, enfatizando a palavra. Eu já fugi de casa e da escola contigo, e quando os idiotas lá da escola partissem o meu coração, era contigo que eu dançava, eras tu o meu par... Era tão bonito te ver com aquela roupa fina, de adulto. Era bonito e continua.

Nunca imaginei que eu fosse me apaixonar por ti, naquele edifício velho com corrimões enferrujados. Eu olhei para ti e de repente já não eras o meu melhor amigo. Eras apenas o melhor. O melhor de tudo. A minha melhor metade.

- Tu és tão especial para mim, Joãozinho.
- Tu também és muito especial para mim, Joana.
O brilho nos teus olhos era diferente.
- Prometes estar ao meu lado para sempre?
- Estarei.
- Sempre?
- Até morrer.
O que era suposto ser uma troca de carinho entre amigos, tornou-se num momento histórico: O nascimento de uma paixão. Ou o reconhecimento.

Neguei a mim mesma, eu não podia amar-te daquele jeito, melhores amigos nunca são bons namorados. Eu fugi de novo, mas dessa vez não foi contigo. Eu fugi de ti, fugi de mim e de tudo que pudesse fazer aquela paixão crescer. Tu achaste estranho eu afastar-me daquele jeito. Eramos só nós... Tu também não tinhas outros amigos. Ficamos sozinhos. Cada um na sua concha.

Até que nos encontramos naquele edifico velho com corrimões enferrujados.

- Joana, por que foges de mim?
- Não é de ti que fujo.
- É de quê então.
- É do amor.
- Do amor não se foge.
- Mas eu fugo. Sempre fiz tudo ao contrário.
- Deixa o amor entrar.
- Tu queres entrar?
- Eu?
- Sim, Joãozinho...
- (...)
- Vês. Foi por isso que eu afastei-me. Tu não gostas de mim!
- Joana... Como posso gostar de ti, se eu te amo?
- Ahn? Oquê? Tu...
- Sim. Eu-te-amo.
- Desde quando?
- Desde sempre.
- Para sempre?
- Sempre.
- Até morrer.

Nunca pensei que namoraríamos tanto tempo e que fugiríamos de casa para casar naquela ilha paradisíaca, com alianças e uma promessa. Éramos só nós. Ninguém precisava saber.