18 junho, 2013

Quando o fim bateu a nossa porta


Não foi nada programado, ele não mandou uma carta no correio e nem se deu ao trabalho de entrar numa cabine telefónica. O fim bateu a nossa porta sem ritmo, como se estivesse zangado com alguma coisa e quisesse descontar em nós. Ele chegou apressado, e falava muito alto, nem tive tempo de fazer a barba, preparar um café ou talvez um whisky com coca-cola. Levantei da cama e vesti uma t-shirt velha que tinha o teu cheiro, esfreguei os olhos e fui recebê-lo.

Mal abri a porta e ele entrou como um furacão, começou por deixar cair os porta-retratos, destruir os álbuns e os nossos DVDs de sexta feira a noite, quando nada nos faz querer sair do conforto na sala fria com pipocas e uns beijos delicados.

Tentei reivindicar, mas o fim é sempre rude, não nos deixa falar, ele acha que tem sempre razão. Perguntei por que ele tinha vindo, franziu o sobrolho e respondeu: ''Vim porque tinha que vir. Chegou a minha hora, rapaz! Porventura achavas que essa palhaçada iria durar para sempre? Como nos contos de fada? Chegou a hora de crescer. Depois do amor é a minha vez.''  Ele disse isso com ar de superior, com o nariz empinado, a olhar para mim de lado. Deu um ultimato e disse que não podia passar de hoje, voltava logo a noite para confirmar. Deu-me as costas e foi embora apressado, o fim sempre tem pressa, ele não se preocupa com os outros.

Tu chegaste meia hora depois, e eu ainda estava no sofá deitado, baralhado. Beijaste os meus lábios e deitaste ao meu lado, dificultando mais ainda as coisas com esse teu cheiro de morangos silvestres. Fechei os olhos para não ter que olhar para esse teu rosto de menina pura que me faz cometer loucuras. ''Longe da vista, longe do coração'' não é o que costumam dizer?

Tu tocaste a minha barba, e senti a palma da tua mão gelada. Seria medo? Seria aquele tal de sexto sentido? As mulheres sabem, as mulheres sempre sabem quando o fim está perto...

A tua mão desceu para o meu abdómen, foi levantando a minha t-shirt e com a ponta dos dedos fizeste círculos na minha pele, como quem desenhasse alguma coisa. Eu não abri os olhos. 
Balancei os pés pertinho dos teus a tentar encontrar uma forma delicada de te dizer que o fim bateu a nossa porta. Os teus dedos, em círculos mais pequenos e alinhados, foram descendo para dentro da minha roupa interior, como se escrevessem alguma coisa, como se escrevessem aqueles créditos que aparecem no fim dos filmes, ou será no início?

Abri os olhos e reuni coragem, beijei o teu rosto, não nos lábios, foi um daqueles beijos que os amantes dos filmes de Hollywood dão nas despedidas. Encostei os lábios no teu ouvido e disse baixinho: ''Eu te amo, mas já não dá para continuar.''

Desta vez tu fechaste os olhos, como quem quisesse processar a informação e ao mesmo tempo como quem tivesse tido uma confirmação do que já sabia. Seria aquele tal de sexto sentido?  As mulheres sabem, as mulheres sempre sabem quando o fim está perto...

Abriste os olhos e reuniste coragem, acariciaste a minha barba e com esta voz de menina pura que me faz cometer loucuras, sussurraste no meu ouvido:
''Faz amor comigo, depois falamos sobre isso. Eu agora não quero falar sobre amor.''

Eu dei dois passos para trás, e virei o rosto para não ter que sentir.
''Mas o fim está perto. O fim bateu a nossa porta.'' 

Tu deste dois passos para frente, e puxaste o meu colarinho para perto de ti.
'' Faz amor comigo até o fim chegar.''

Disseste, e eu me entreguei ao teu cheiro de morangos silvestres.