27 agosto, 2013

A barbaridade de Bárbara


 
Lembro-me perfeitamente do dia 11 de Setembro, não pelo atentado às Torres Gêmeas nos Estados Unidos mas sim pela animação dos rapazes do meu prédio. Bela e Bárbara eram as novas vizinhas, irmãs gêmeas e muito bonitas, baixinhas, morenas, usavam o cabelo cacheado até aos ombros. Eu não vi nada tão especial em nenhuma das duas e nem tentei aproximar-me, embora elas morassem no mesmo andar que eu.

Bela era muito extrovertida, rapidamente torna-se amiga de metade da vizinhança, ela sempre sorria e gostava de usar vestidos floridos.
Bárbara era estranha, introvertida, estava sempre com os olhos cansados e lábios secos, não ligava para a aparência e nem para a opinião alheia.
Todo mundo gostava muito da Bela e ela fazia questão de agradar as pessoas, com o tempo até eu comecei a falar com ela, descobri que tínhamos muita coisa em comum, ela também era apaixonada por informática, eu via vida nos olhos dela, mal sabia que a morte estava perto.

Passaram-se 10 meses, as gêmeas saíram animadas para uma ida a praia e ao entardecer eu só conseguia ouvir choros no apartamento ao lado, gritos e passos apressados nas escadas. Não demorou muito para que a notícia de espalhasse: Bela tinha morrido afogada. E o prédio inteiro chorava por perder a menina que oferecia sorrisos.

Eu e os meus pais fomos prestar apoio a família, dei as condolências aos pais e disponibilizei-me para qualquer eventualidade, depois fui abraçar a Bárbara que chorava inconsolavelmente. Nunca tínhamos trocado uma palavra até o dia em que ela foi para a minha casa, e disse que precisava desabafar. 
― Nando, eu matei a Bela. Fui eu que incentivei-lhe e ir para o mar, mesmo sabendo que ela não sabia nadar. A culpa é minha.― Confessou enquanto chorava e abraçou-me.
Contou-me que os pais estavam contra ela e já não lhe tratavam da mesma maneira, diziam que ela era a culpada pela morte da irmã. Bárbara sentia-se muito só e precisava de mim. O ambiente em casa dela tinha se tornado insuportável, os pais discutiam cada vez mais e descontavam a fúria nela. Bárbara tinha se tornado a única filha, saiu da solidão acompanhada para a tristeza solitária.

Ela passava a maior parte do tempo comigo lá em casa ou na varanda, também saíamos algumas vezes. A minha mãe gostava da nossa relação e achava estranho quando não estivéssemos juntos.
A minha mãe chamava a Bárbara de ''amor'' porque os dois eram difíceis de entender.

Bárbara foi a minha primeira namorada, o meu primeiro amor correspondido. Ela as vezes parecia ter problemas mentais, tinha uma obsessão pela morte e já tentou o suicídio inúmeras vezes, fazia cortes na própria pele com as facas de cozinha, lâmina ou canivete.

Ela gostava de fugir de madrugada para ir dormir comigo, ficávamos deitados na cama de barriga para cima e ela introduzia diálogos impensáveis.
― Qual é o teu sonho, Nando?
― Ser um homem bem sucedido e ter uma família feliz. E o teu?
― O meu sonho fugir.
― Fugir de quê?
De mim.

Uma vez pesquisamos o significado do nome dela na internet e descobrimos que Bárbara significa estrangeira, e é isso mesmo que ela era, um ponto negro no meio de um pano branco. Bárbara não sorria com os lábios, sorria com a alma e eu podia senti-la, os olhos negros quase sempre cansados reflectiam o amor que eu sentia por ela e Bárbara jurava que me amava, mesmo sem amar a ela mesma.

Uma vez, estávamos na varanda a assistir o nascer da lua, ela apoiava a cabeça no meu ombro.
― A vida é bela, meu amor.― Eu disse baixinho.
― Não, Nando. Bela é a morte. A vida sou eu.'' Ela corrigiu com a voz suave.

 
Eu fui o primeiro homem da vida dela e ela a primeira mulher da minha, experimentamos ao mesmo tempo o primeiro cigarro e o primeiro orgasmo. Aquela foi a melhor noite das nossas vidas, a única vez que vi um sorriso não só na alma mas no rosto dela. Dormimos abraçados, aquecidos pelo prazer e pelo fumo, na minha cama de solteiro, com a janela fechada, para não sermos alcançados pelos problemas do mundo.

Na manhã seguinte, a minha mãe acordou-me sobressaltada, olhei para o outro lado da cama e a Bárbara já não estava. A janela estava aberta e lá de baixo ouvia gritos e choros, os passos apressados na escada me eram familiares. Na mesa de cabeceira encontrei um bilhete:

'' Ao teu lado vivi os melhores dias de sempre, a noite foi incrível mas precisei sair sem te acordar, vou para a minha casa realizar o meu sonho, vou fugir de mim mas espero continuar viva ao teu lado. Amo-te hoje e sempre.
P.s: A morte é Bela, eu sou a vida.''

Eu não podia acreditar naquilo. Recusei-me a olhar pela janela para ver coisas duras para os olhos e para o coração. Ouvi o barulho da ambulância e decidi confirmar as minhas suspeitas. Era verdade, a Bárbara estava lá em baixo, feita aos pedaços. A minha mãe chorou e abraçou-me.

―  Fernando, o amor acabou.   Disse ela entre um soluço e outro.
―  Sim. Desfez-se, partiu-se, foi-se. O amor morreu, mamã. Morreu.''

Os dias passaram, eu recuperei-me e continuei a olhar para frente. Lembro-me sempre da nossa última noite, a melhor das nossas vidas, quando ela sorriu pela primeira vez, quando ela entregou-se pela primeira vez e eu me senti amado. Lembro-me daqueles olhos calmos, sempre escuros e sossegados, do rosto pálido e lábios rosados. E sempre que desanimo ouço aquela voz suave sussurrar-me no meu ouvido ''A morte é bela, a vida é Bárbara.''

Ah, que barbaridade!