08 janeiro, 2014

Be-atriz. Be-a-star.

Beatriz queria ser uma estrela. Não dessas que eu fazia no Point nem no Photoscape. Ela queria brilhar para além da tela do meu computador... Queria brilhar em Hollywood.
Sonhava tão alto que as vezes era difícil alcançá-la. Ela morava com a mãe e três irmãos numa casa com apenas um quarto e sala. A mãe dormia na cama com o mais novo, os outros dois dormiam no chão e ela dormia no sofá da sala. Beatriz era a única menina e a filha mais velha. O pai fugiu quando o mais novo nasceu, não aguentava a própria vida, imagina mais uma!?

Eu conheci a Beatriz no super mercado. Ela tinha apenas 17 anos mas precisava trabalhar para ajudar nas despesas de casa, trabalhava como operadora de caixa. Eu tinha ido comprar pilhas para uma das minhas engenhocas, ela estava no caixa 7, muito bonita e sorridente. Beatriz tinha o cabelo afro preto, usava uma crista trançada nas laterais. Ela  validou o produto, eu paguei e ao receber a factura elogiei o penteado.
Voltei para o super mercado todos os dias da semana seguinte, comprei um milhão de pilhas, giletes, lâmpadas e coisas que aposentei na cave lá de casa. Depois de um mês ganhei coragem e convidei-a para sair. Aceitou em menos tempo que eu demorei para pedir.

Ela era uma sonhadora, batalhadora, tão nova e já tinha as ideias formadas. Não deixava que qualquer um a fizesse de idiota, nem homens cheios de estilo que faziam promessas para a vida toda. Ela tinha objectivos e sabia bem que métodos utilizar para alcançá-los. Poucos acreditavam nela e muitos duvidavam da beleza dos seus sonhos. 
― Tu tens que provar que eles estão errados. 
Eu aconselhava.
― Eu não preciso provar nada para ninguém. Sei bem quem sou e de onde vim. Não sei ainda para onde irei, mas isso nem eles sabem... Eles nem fazem ideia!

Beatriz tinha um brilho diferente, parecia gente de outros tipos, de outros sítios.
― Essa cidade é muito pequena diante do tamanho dos meus sonhos. Eu nasci para brilhar, Nando.

Beatriz frequentava um curso de teatro e sonhava ser actriz, inspirar Woody Allen ou até mesmo Ryan Murphy, ela também cantava muito bem, podia encantar na BroadWay. 

Quando decidiu ir embora, passou lá em casa para se despedir, foi apenas com a roupa do corpo, um saco com os produtos do cabelo e de higiene, e uma pasta com os documentos pessoais e monólogos que tinha escrito. Sim. Beatriz tinha muitos talentos.

Seria egoísmo querer que ela ficasse, o mundo estava a espera dela e ela precisava brilhar. O sonho dela não estava em nenhum programa de computador que eu pudesse manipular.

Ela voou, andou por terras novas, conheceu pessoas como ela, aprendeu línguas e mostrou quem era. Encantou olhos e fez cair queixos. Pela representação, voz e... Ah, não posso deixar de mencionar aquela beleza africana!
Hoje, ela aparece na televisão, já contracenou com o DiCaprio e a Lea Michele. Quase ninguém acredita quando digo que somos amigos, mas uma coisa aprendi com ela ''Não preciso provar nada para ninguém''.
Fico feliz sempre que a vejo numa tela. E tudo o que consigo dizer é:
 ''Brilha, Beatriz. Be a star''. 
E ela brilha. Ela é uma estrela.