18 abril, 2014

Escreve-me também um dia desses


          
Acordei de madrugada, estava sem sono e sem sonhos para manhã seguinte. Pensei em todas as pessoas que saíram da minha vida sem dar satisfação, que entraram no meu coração e deixaram toda essa desarrumação, especialmente em ti. Este é o lado mau de ter insónias, a mente insiste em lembrar de coisas melancólicas e eu fico com aquela vontade doentia de chorar, comer chocolates, tomar café e organizar palavras para escrever algo que preste.

 Mexo um pouco e tento encontrar uma posição confortável para voltar a dormir...Viro para esquerda, direita, dou meia volta e nada! Os meus olhos insistem em desobedecer-me, então, eu pego na minha máquina do tempo imaginária e viajo para aquela noite de cacimbo em 2008. Éramos jovens, em plena fase de descobertas. Sorriamos no momento e depois sofríamos com medo das consequências. Aquele cacimbo fez-nos viver mais aventuras do que qualquer outra altura das nossas vidas. Era estranho pisar nas nuvens sem sair do chão, estar o céu sem precisar voar. 

Abri a primeira gaveta da mesa de cabeceira e tirei a minha caixinha de lembranças, é a ela que eu recorro sempre que preciso sentir alguém mais próximo nem que seja só na minha memória. Lá estava um postal que a minha mãe enviou no Natal, a carta que o meu primo que mora na África do Sul escreveu a contar-me sobre a nova vida dele lá, e-mails engraçados dos meus amigos do tempo da escola, e alguns textos que eu imprimi para ler em momentos de tristeza ou alegria... Naquela caixa, tinha tudo de todo mundo, mas não tinha nada teu!

 Sempre preferiste falar, até onde me recordo escrever nunca foi o teu forte. Mesmo agora, depois de adulto, preferes fazer vídeo-chamada do que teclar. Tu lá, depois do oceano, com novos planos e sonhos...
 Eu aqui, com a minha caneta de sempre, papel, café e muita saudade. Por vezes desejo voltar no tempo, não com a máquina imaginária mas sim na realidade e mudar os nossos itinerários.

Depois daquele cacimbo, eu escrevi-te algumas cartas mas tu nunca respondeste. Apenas telefonavas ou pedias-me para ir para a Internet. Maldita tecnologia! Estragou toda magia da escrita.
Lembras-te que eu não gostava de falar pela Internet? Achava tudo isso uma forma camuflada de destruir as relações humanas...Mas afinal isso era apenas mais uma das minhas neuras! 
Aprendi a gostar de tecnologias para poder acompanhar o teu ritmo. Acho que também devias tentar gostar das coisas que eu gosto, só para não me ver chorar. Tu nunca escreveste-me nenhuma carta, mesmo sabendo que amo recebê-las.

Escreve-me também um dia desses, não quero um e-mail a desejar bom fim de semana e nem mensagens a desejar-me bom dia. Escreve-me uma carta, a falar sobre o clima da Europa, sobre as brincadeiras da tua filha mais nova, também podes falar da tua esposa, ela conseguiu ensinar-te a fazer o nó da gravata?  Já costumas tomar o pequeno almoço antes de sair de casa? Espero que tenhas deixado de ser tão teimoso.

Escreve-me também um dia desses, mesmo que não haja coerência nas tuas palavras, mesmo que não hajam promessas a cada verso, que não hajam rimas a criar magia...Faz-me apenas lembrar daquele cacimbo, como eu faço todos os dias.