06 julho, 2014

Correspondência para o meu amor não correspondido


Ao meu antigo,

Talvez as palavras dessa carta acabem por ser irrelevantes, pois podiam ter sido postas em acção quando tivemos a oportunidade, ao invés de serem miseravelmente escritas depois dessa minha tremenda embriaguez de solidão que amanha me causará ressaca de desamor, auto-compaixão e desilusão. Na verdade, estou perdido entre cada momento passado que compartilhamos, estou preso ao mais ínfimo pedaço doce do teu ser que insiste em reaparecer na minha mente da forma mais nítida e insistente que se possa imaginar ser possível.

Amor não tem controle sobre mais nada, senão corações. E nossos corações, imperfeitos desde a criação como são, não foram suficientemente fortes para suportar toda a pressão exterior que o mundo pôs sobre nós. Agora, tudo sobre ti que em mim ficou, acabou reduzido em lembrança... E são várias as lembranças. Lembro-me do teu olhar penetrante, com aquele sabor menino capaz de penetrar qualquer alma humana e desvendar os mais profundos mistérios do mesmo. Lembro-me do sorriso tímido que deste quando eu contei-te a única piada sem graça que sabia, no dia em que o destino maroto decidiu apresentar-nos um ao outro (É, ainda acredito que foi obra do destino). Lembro-me de tudo sobre ti: teus sonhos, tuas ilusões, teus amores e tuas decepções.

Ainda vivo iludido. Vivo agarrado a esperança semi-viva de que tu voltarás e que cada momento não vivido, será duplamente ampliado para algo amorosamente ridículo e extravagante. Talvez tenha sido isso o que faltou: Amor ridículo. Sou movido pela ilusão de que uma segunda chance seja amorosamente possível. Ilusiono que Deus, o mundo e tudo em que como humano sedento de teu amor que sou acredita, conspire a favor duma possível correspondência entre nós.

Talvez essas palavras acabem sendo incompreendidas, mas como Fernando Pessoa escreveu:
O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.

                                                                       Miguel Dos Santos
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Ao meu amor não correspondido,

Vamos voltar para 2012: No dia do nosso aniversário de namoro, eu pedi que escrevesses uma carta de amor para mim, e tu, com o teu antigo bom humor, limitaste-te a transcrever o poema de Fernando pessoa ‘’Todas as Cartas de amor são ridículas’’ e oferecer-mo com uma caixa de chocolates.

2 anos depois escreves-me esta carta... O que posso dizer?
Sinceramente, esperava que estes meses de distância influenciassem no teu crescimento, mas continuas a ser o mesmo homem de sempre, aquele que só depois de uns copos consegue dizer o que sente. Palavras adoráveis são inúteis perto de acções  detestáveis. Tu mexeste com o que há de mais intimo em mim, fizeste com que eu entregasse de mão beijada tudo aquilo que um dia me pertenceu, entreguei-te o meu corpo, a minha alma, a minha mente. Perto de ti, o mundo não existia, passei por cima da minha família, defendi-te até mesmo quando estavas errado porque para mim o mundo não era mundo se tu não estivesses por perto.

A nossa relação não era perfeita, garanto-te que nunca esperei pela perfeição, o meu único desejo era que tu lutasses por nós, e nem sequer precisavas de ir comprar armas porque já estava tudo nas minhas mãos só que tu não quiseste receber. Lembras-te de quantas vezes eu chorei e olhei-te nos olhos a pedir que demonstrasses só um pouquinho do teu amor? Lembras-te? Claro que sim, tu sempre disseste que tenho um olhar penetrante. Olha só que engraçado! Enquanto eu chorava por amor, tu viravas o rosto e dizias: ‘’Não gosto quando olhas para mim assim. Limpa estas lágrimas.’’  Eu limpava as minhas lágrimas e continuava a amar-me por nós os dois, dava-te tempo para perceberes a mulher maravilhosa que estavas a perder. Depois de veres os meus olhos livres de lágrimas, tu abraçavas-me e beijavas cada centímetro do meu corpo, elogiando-me pelas pernas e seios fartos, enquanto tiravas a minha roupa. O teu lema era: Fazer amor? Sempre. Falar sobre ele? Jamais!

Com o tempo, tudo perdeu o encanto. Eu merecia muito mais do que aquilo que me oferecias. Despedi-me de ti e dei boas vindas a vida que estava a bater a minha porta. Novos mundos e tu já não fazias parte dos meus planos. Tu cavaste o teu próprio buraco.

Os meus sonhos? Nunca me ajudaste a segui-los.
As minhas ilusões?  São elas que me fazem ter esperança no mundo.
As minhas decepções? Foste o maior motivo.
Os meus amores? Antes de ti nunca houve nenhum mas tenho fé que o destino que chamas de maroto, reserva algo bom para mim. Tenho fé.


Como escreveu Bernardo Soares, semi-heterónimo de Fernando Pessoa: ‘’Há momentos em que tudo cansa, até o que nos repousaria’’. Por isso, não chorei de emoção quando li a tua carta, estou cansada demais para isso. Como dizia o papel que me deste ‘’Todas as cartas de amor são ridículas''


                                       Rosa Soares