14 agosto, 2014

Mas antes, deixa-me tirar uma selfie.


Mensagens instantâneas, fotografias em alta resolução, chamadas para o outro lado do mundo, compras, jogos,  filmes e livros... Tudo isso na palma da mão. Quem não gosta de Smartphones? Que tire a primeira selfie.

De uns tempos para cá, tenho reparado que estamos escravizados pela tecnologia. Claro que não falo por todos, mas por mim e pelas pessoas que fazem parte do meu meio.
As redes sociais e as demais facilidades dos telefones inteligentes têm, muitas vezes, nos impedido de usar a nossa própria cabeça e estabelecer relações com quem está connosco ao vivo e a cores. Não há perguntas que o Google não consiga responder, não há pessoas que o instagram, facebook, twitter, tumblr e o snapchat não conheçam, nem erros que o auto-correct não corrige.

Na sala de aulas, reuniões familiares, festas com amigos... Passamos o tempo com a cabeça baixa, a olhar para o telefone, sem prestar atenção na aula e nem sequer nos preocupamos em passar a matéria porque sabemos que o nerd irá tirar uma foto e enviar para o grupo da turma no whatsapp. Não ouvimos os planos, reclamações nem histórias das pessoas que moram connosco porque estamos muito ocupados a socializar com aqueles que estão do outro lado do visor. Não dançamos, nem curtimos os momentos com os amigos, apenas compramos garrafas, enchemos os copos e passamos o resto da noite a publicar na Internet: #SaídaComOsAmigos #NightOut #Diversão #Énós #Instamizade #Tagsforlikes. Depois de muitas publicações, garrafas abertas na área VIP e alguns toques de dança a noite acaba e voltamos para casa com um snap com a seguinte descrição: Finalmente em casa.

Será que isso é realmente diversão? O que fizemos com aquela alegria de antes? A sensação de rever amigos, ficar na festa e dançar  até sentir dor nos pés, cantar até ficar com a voz rouca e beber sem precisar mostrar para o mundo que sentimos o sabor da bebida mais cara da noite? Será que trocamos tudo isso pela vontade de nos mostrarmos para pessoas que mal conhecemos?

Para ser sincera, a primeira coisa que faço ao acordar é olhar para o telefone e ver se recebi alguma mensagem durante a noite, actualizar o instagram e o snapchat, e também ver as novidades do facebook. Muita gente antes de comer ou abrir presentes, já tira uma foto para partilhar com o mundo; Outros exageram e publicam todos os seus passos, o que fizeram, com quem e onde fizeram... Violando a privacidade de quem não tem nada a ver com a tal rede social.

Quando estou num sítio onde não conheço ninguém, tiro o telemóvel do bolso e procuro alguma coisa para fazer, isso tudo para não me sentir desconfortável. Mas sei que seria bem melhor se partilhasse os meus pensamentos e desenvolvesse algum tema interessante, sobre arte, política ou economia.
Lembra-te que enquanto estás com a cabeça baixa, muitas oportunidades passam por ti. Então, em vez de olhar para o telefone, que tal olhar para pessoa que está ao teu lado na sala de espera? Começar uma conversa com alguém na fila do banco? Que tal sorrir para o garçom e saber como ele está em vez de perguntar logo se tem Wi-fi no restaurante?

A vida não é só Internet, e não adianta ser social na rede se é aqui fora onde tudo acontece. No mundo em que vivemos, amizades acabam por causa de boatos em grupos no whatsapp, traições são fotos e vídeos de 10 segundos no snapchat que são denunciados por screenshots. E os namoros? Ah, muita gente namora apenas para mostrar, até a mensagem de bom dia querem postar. Existem casais que nem sequer são felizes por trás das fotos lindas e juras de amor eterno.


Decidi escrever este texto porque ontem uma amiga convidou-me para ir passar uns dias na fazenda dela, no Kwanza Sul, e a primeira coisa que perguntei foi:
— Lá tem rede?
— Não. Por isso mesmo é que temos que ir, vocês precisam desfazer-se dos telefones. — Ela disse, com muita razão. Pensei muito sobre isso e cheguei a conclusão que somos mais valiosos do que retweets, compartilhamentos e likes.

Temos que satisfazer os nossos pequenos prazeres... Respirar ar puro, comer bem, aprender coisas novas com livros e outras fontes que não sejam somente o Google, cuidar do nosso corpo sem precisar da hashtag #Gym, estar perto da nossa família e amigos, amar e ser amados, acordar sem sentir a necessidade de estar deslumbrante para postar uma foto no instagram com a descrição: I woke up like this #Flawless. Deixa esta tarefa para a Beyoncé.
A vida é rara e muito mais preciosa do que qualquer rede sem fio, por isso aproveita cada momento. Não sejas como muitos que andam por aí, passam tanto tempo a postar sobre felicidade que acabam por se esquecer de ser felizes de verdade. 

Hoje, vou falar com a minha amiga e dizer que estou disposta a ir para a fazenda, aproveitar a vida tal como ela é... Mas antes, deixa-me tirar uma selfie!