30 setembro, 2014

Vem buscar o Lúcifer


Está tudo tão desarrumado que não sei por onde devo começar a arrumação: Pelo quarto ou pelo coração?

Parece que passou por aqui um furacão. As roupas caíram dos cabides, os livros estão espalhados pelo chão, os perfumes estão misturados e já não reconheço nenhum cheiro, está tudo baralhado como as cartas de um jogo. Neste labirinto, estou a tentar encontrar o caminho que me leva de volta a ti.

Não consigo sair da cama, estou aqui deitada a tentar decifrar a maneira mais adequada para me desculpar. O Lúcifer, gato que me ofereceste, encontrou repouso em cima de um rádio velho e olha para mim com piedade, parece que ele compreende algo que está longe do meu entendimento.
Sinto-me intimidada por ele, e olho para esta porta enquanto me lembro com nitidez da última vez que te vi. Eu te disse com todas as palavras para me deixares em paz, porque nunca teremos mais do que uma amizade, olhaste para mim com tristeza mas aceitaste a minha decisão, disseste que cada um é responsável pelas escolhas que faz.

Naquele momento suspirei de alívio por saber que estaria livre dos teus telefonemas em horas inadequadas, das tuas mensagens românticas e das flores. Ah! Que saudades das flores! Oferecias-me uma todos os dias, dizias que era para renovar o sentimento e que se um dia aceitasse o teu pedido de namoro irias oferecer-me um jardim, para vermos o sentimento a florescer dia após dia.


Sempre foste meu amigo, eu te contava sobre a minha vida, tu me conhecias melhor do que ninguém e por esta razão não podíamos ter nada além, eu tenho uma regra que é: Não namorar com quem conhece todos os teus defeitos. Eu achava-me feliz com os outros homens, que entravam e saiam da minha vida; Eu sentia-me desejada por aqueles homens que elogiavam as minhas curvas corporais e não o meu sorriso; Eu lutava para conseguir a atenção dos valentões que não queriam compromisso. 


Gastei tempo com quem não queria ficar, que acabei por deixar passar quem não queria ir.

És tu,  a pessoa a quem nunca dei importância, até partir...
Quando disse para me deixares em paz, não era isso o que realmente desejava. As mulheres dizem coisas que não querem, as mulheres são impulsivas e, mulheres como eu, pensam que são insubstituíveis e nenhum homem conseguirá afastar-se para sempre... Engano meu!

Eu fiz a minha escolha, mas não consigo lidar com o vazio que ela me trouxe. Não consigo lidar com a amargura da tua ausência, com o silêncio do telefone e o olhar do Lúcifer... Ah! Este gato olha para mim como se compreendesse alguma coisa que está longe do meu entendimento.