12 dezembro, 2014

Da pré-cabunga ao ensino médio. O que fazer depois?


Tudo começou num belo dia, em que os teus pais disseram: Este ano, começas a estudar!
Foi uma boa notícia? Claro! Tu já desejavas isso há algum tempo, querias também ter cadernos, lapiseiras, tarefas por fazer, e novos amigos. Querias ser grande, como os teus irmãos ou primos mais velhos. 
Se foste uma criança como a maioria, o teu primeiro dia de aulas foi um desastre e choraste ao ser deixado na sala de aulas com tanta gente estranha e um quadro verde com letras escritas a giz. Se foste uma criança como eu, ficaste entusiasmado e a te perguntar por que razão os outros choravam. 
Os meses passaram, aprendeste as cores, as formas, fizeste barcos e chapéus de papel. Tiveste algum colega que mijava-se ou fazia cocó nas cuecas, um colega que peidava e logo a seguir dizia ''Quem peidou?'', uma amiga que já tirava negativas naquela época, um que só comia, outro que não falava com ninguém e aquele que fazia relatos das novelas, filmes e jogos de futebol. Já fizeste óbitos por causa do fim do trimestre e de certeza quase absoluta também choravas quando alguém mais velho cantasse esta música para ti:

'' Pré-Cabunga come funge com salada! ''

Sentiste-te motivado por esta música:

''Hoje é um dia lindo, me sinto contente
Hoje é um dia lindo, me sinto contente
Levanto e salto
Dou meia volta e sento''

Aprendeste o que é pontualidade, quando chegavas na escola e eras recebido assim:

''Boa tarde, colega atrasado. Senta no chão, kassumuna vai morder. Come muito na cozinha da mamã, é guloso!''

Aprendeste uma canção assim:
''A Mangonha, faz xixi na cama, atrasa na escola, não aprende a lição.''

(Até hoje estou curiosa para saber quem é a Mangonha. Onde ela vive e quem foram os amigos fofoqueiros que espalharam sobre a vida dela.)

Aprendeste a ser educado, e cumprimentar os mais velhos com respeito: Senhor professor, Senhor visitante, Senhor encarregado, Senhor director, Senhor vigilante.

Com a ajuda dos teus encarregados de educação, fizeste as tarefas direitinho e passaste de classe. Aprendeste a ler e a escrever, fizeste algumas experiências de cartas aos teus colegas e familiares. Passaste por ditados e tiveste que aprender a tabuada (a bem ou com a palmatória ''Maria das dores''), fizeste amigos e ''skiminy'' (mas quem inventou esta palavra? hahaha) com muitos. Quanto mais crescias, mais ansioso ficavas pelo intervalo maior. Até inventavas desculpas como ''Tenho sede'' para ir dar uma volta pela escola e espairecer.

O tempo passou e as classes também. A palmatória foi proibida nas escolas, tiveste disciplinas novas e nas provas já apareciam perguntas de desenvolvimento. Apaixonaste-te pela primeira vez e contaste para uma amiga que espalhou ao resto da turma. Aprendeste a ver quem é bom partido por causa do jogo ''Ôh nada Diala'' e muitos já adivinharam com quem irias casar. Lembras-te?
''Com quem será? Com quem será que a fulana vai casar? Loiro, moreno, careca, cabeludo, polícia, ladrão, soldado ou capitão? Estrelinha, estrelinha do meu coração!'' Ficavas triste, se calhasse um ladrão e riam de ti se fosse um careca.
Mas sabes de uma coisa? Terminaste o segundo ciclo e ainda nem sequer tens um relacionamento sério. Então, 99% das coisas que levas muito a sério, não vão acontecer.


Quando as matérias se tornaram complicadas, o boletim de notas virou motivo de tristeza para alguns. Há os inteligentes que choravam por ter 17 e os que se contentavam com 10. Outros rasgavam o boletim e todos os comunicados que era suposto entregar aos encarregados de educação. 
Então começam as cábulas, uns foram apanhados e reprovados, outros são tão experientes que não se importam de sentar na primeira carteira. Alguns arranjaram namorados na escola e era este o motivo de entusiasmo, quase todos demos o primeiro beijo, tivemos a primeira desilusão amorosa, crises de identidade. Apareceram as regras:

''NÃO USAR TELEMÓVEIS NA SALA
NÃO PINTAR AS UNHAS
NÃO USAR MAQUILHAGEM
RAPAZES DEVEM CORTAR O CABELO
NÃO SÃO PERMITIDAS CALÇAS MUITO JUSTAS E QUE NÃO SEJAM AZUIS.''

E tu te perguntas: ''O que é que a minha aparência tem a ver com a minha aprendizagem? Será que os rapazes carecas têm mais espaço para armazenar informações? Será que a maquilhagem diminui o Q.I?'' 

Chegou o momento de escolheres um curso. Prática ou teoria? Letras ou números? Muita gente opinou, citaram-te as profissões de sucesso e fizeram-te pensar que o teu futuro dependia de uma escolha profissional. Bem-sucedido ou fracassado? Muitas perguntam surgiram, muitas regras foram quebradas, muitos métodos foram questionados. Criamos boas relações com alguns professores e fizemos amigos que vamos levar para a vida inteira. Muitas pessoas com as quais nos preocupamos, não iremos voltar a ver. 



Alguns reprovaram, uma grande maioria desistiu dos estudos. TU ESTÁS AQUI! Terminaste o ensino médio, com média excelente ou suficiente, mas o importante é que conseguiste. Pela primeira vez, saíste da escola com a certeza que não irás voltar para lá em Fevereiro do próximo ano.
Encerras agora um ciclo,  e abres portas para um mundo completamente novo. Um universo que está faminto e quer ser alimentado pelas tuas ideias. 
Acabou o ensino médio e começou o mundo, aquele sobre o qual os adultos tanto reclamam. Responsabilidades vão aumentar e vais descobrir que a tua vida não depende de ninguém para além de ti mesmo. És tu quem decide o teu futuro e cada um trilha os próprios caminhos. Vais perceber que as fórmulas que decoraste para fazer a prova de Física não servem para resolver os problemas da vida; Vais deduzir que as frases filosóficas ficam mais bonitas no papel e a única que se aplica à realidade é a máxima de Sócrates: ''Só sei que nada sei.''