30 janeiro, 2015

Tu pertences ao mundo


A cada dia que passa, a minha vida vai perdendo a pouca graça que lhe restava. Enquanto uns não têm onde dormir e procuram por um prato de comida, eu tenho uma cama enorme preenchida pelo vazio que também ocupa o meu coração. Tenho fome de amor mas não quero ser alimentada, é contraditório mas é verdadeiro. Sempre tive medo de me envolver demasiado e de forma inconsciente afogar-me num mar de promessas que não são mais do que fruto da emoção ou até mesmo da tesão de dois corpos nus. 

Desisto! Tu pertences ao mundo.
Ele disse, e desligou o telefone. Deixando no ar a promessa de nunca mais procurar-me ou emprestar-me o seu corpo para satisfação momentânea. Prometeu que não voltaria a acreditar nas palavras bonitas que saem da minha boca sem nenhuma sinceridade. Jurou pela sua existência que não iria mudar de ideias, nem que eu o procurasse com o meu sorriso de vaidade. Ele prometeu isso muitas vezes mas acabou por voltar. Sim! Ele sempre volta.

Sou apenas uma mulher com mágoas do passado, uma mulher que aprendeu a não confiar nos homens. Ele diz que eu não presto, e eu digo que só um ser da mesma espécie reconhece o outro. Ele já brincou com metade das raparigas da cidade, já partiu corações que nunca mais foram reparados, já recebeu telefonemas como os que faz para mim, já causou lágrimas como as que ele deixa cair por mim. Já recebeu até pedidos como os que faz para mim: "Não me deixes, por favor!"
Eu adoro quando ele diz isso, porque adoro o poder que tenho sobre ele. Muitos chamam-me fria mas eu digo apenas que sei as leis da vida e tive que aprender da forma mais difícil.

Recebo telefonemas e mensagens ameaçadoras de mulheres malucas que deviam agradecer-me. Eu estou a fazer a vingança por elas, estou a fazer a vingança em nome das mulheres que ele abandonou nos quartos de hotel, das mulheres que esperaram pelo seu telefonema no dia seguinte. Eu estou a vingar-me dele por elas, do mesmo jeito que espero que alguém se vingue do homem que me partiu o coração.
Olhei para o telefone e ele estava a ligar-me outra vez, eu sabia! É sempre a mesma coisa.
 — Só estou a ligar para deixar bem claro que não te quero de volta.
—  Eu não pedi para voltar.
 Como consegues ser tão sem coração?
 Como consegues amar-me assim?
— Eu amo-te porque sou diferente de ti.
— Tenho pena!
— Ah! - Suspirou.  Eu desisto de ti, repito: Tu pertences ao mundo.
Não querido, eu não pertenço ao mundo. Sou apenas mais uma vítima, tal como tu.

(Silêncio)
...
(Chamada terminada)