21 abril, 2015

Ela não para de sorrir- Texto de Oliveira Prazeres


“Para a(s) Emilia(s), Adriana(s), Suely(s), Holanda(s)
e Mirian(s) que lêem-me nesse espaço”



Não existem finais felizes. Aquelas histórias com o “e foram felizes para sempre”, é mera ilusão da Disneylândia. É coisa de contos de fadas para iludir-nos com alguma esperança. Quando se trata da vida real, real como ela é, penso em um pintor que com toda sua mestria revela em tela o lado obscuro da realidade e da vida, ao ponto de paralisar qualquer admirador de arte.
Ora se a felicidade existe, então não se resume na quantidade de sorrisos que graciosamente soltamos pela vida – tudo que venho fazendo ao longo dos anos é sorrir para às pessoas, manter uma compostura de tamanha elegância, responder com doçura e sorrir. Sempre sorrir! –, isso é o resultado dos sonhos que minha mãe nunca alcançou. Hoje, ela é daquelas velhas aeromoças da companhia de aviação que sobrepuja as rugas às custas de cremes e dos tratamentos de beleza que vive fazendo pelos países por onde passa, é resultado da sua obsessão por um padrão de beleza que somente existe no seu mundo. Ela sempre diz que na família o nosso maior tesouro é a beleza com que viemos ao mundo, fala abertamente de como nascemos para brilhar, seja no palco, passarela e onde quer que seja. De como devemos reverenciar a beleza e que as pessoas devem antes de curvar-se a nossa, tal como nos culto a beleza da deusa Afrodite.
Cá em casa é um festim de fotos e álbuns de família que já vêm de outras gerações. Agora com toda essa modernidade das tecnologias e internet o que não falta são fotos e mais fotos nas redes sociais. Vídeos, número de visualizações e compartilhamentos é o cardápio de cada manhã. Já é modo de vida ter que criar e recriar frase em busca de seguidores e likes, afinal venho sendo criada para brilhar. Desde cedo fui ensinada a sorrir, a preservar ao máximo os meus dentes. Esses mal sabem o que encher-se de guloseimas – tens que ter um sorriso branco Colgate, dizia a mamá. Tens que manter a postura corporal ereta – insistia vezes sem conta.  Fui treinada a ser uma miss-mercenária não apenas em passarelas, mas também na vida. Sorrir é meu modo de sobrevivência. Meu único jeito de viver, é viver os sonhos que já perduram há várias gerações na minha família. Mas os meus sonhos, esses ainda não aprendi a sonhar!
Sempre pergunto-me por que as pessoas tendem a fazer fotos sorrindo. Pois fico com a impressão que, tal como eu, elas estão apenas vivendo falsas sensações de felicidade. Talvez porque sorrir já é profissionalismo: afinal usa-se um sorriso para fingir, para mentir, apunhalar, para amar, magoar, para mascarar às verdadeiras intensões da alma humana… o sorriso é reação automática a vida – é bem nesses momentos costumo parafrasear a Aline Frazão “somos todos feitos da mesma essência, então se a minha felicidade não existe, a dos outros deve ser apenas aparência” –, no entanto a única certeza que tenho mesmo é que nunca hei-de parar de sorrir até achar a verdadeira felicidade, nem que não seja tão duradoura quanto os contos da Disney.



Oliveira Prazeres,

 in Confissões Que Elas Nunca Fariam