06 abril, 2015

Eu te traí- Texto de Oliveira Prazeres



“Para a(s) Sofia(s), Rosa(s), Maria(s),  Kátia(s)
e Filipa(s) que lêem-me nesse espaço”


“Mor”, hoje eu te traí. Não houve razão aparente p’ra tal, aliás nunca houve mesmo motivo algum para um acto tão vergonhoso, confesso com tanta vergonha essa minha pouca vergonha. Tu tens sido o namorado que qualquer mulher gostaria de ter – és atencioso e sempre te lembras das datas importantes da nossa relação, fazes das minhas as tuas prioridades também. És o companheiro que qualquer mulher anseia ter por perto – estás presente mesmo quando distante devido o teu trabalho offshore na Chevron. Passeios, flores, doces surpresas, jantares inesperados, chamadas e mensagens fora de horas fazes sem sacrifício – tu sempre foste sincero e verdadeiro sobre ti, sobre o teu passado e sobretudo sobre os teus medos e anseios. Os teus planos futuros sempre passam pelo bem-estar da nossa relação.
Mas “Mor” eu te traí – Foi numa dessas festas que não podias acompanhar-me devido a sua ausência de Luanda por questões profissionais – numa dessas noites badalada pelas madrugadas na baixa da cidade e eu estava com a Leila, Mila e a Rosema: deixamo-nos levar pelo clima da discoteca e dos shot’s embriagantes que tomamos. Nem sei ao certo como pude me descuidar dessa forma, mas descuidei-me tanto que mal me lembro de como de repente eu já estava aos beijos e amassos na traseira de um carro com um jovem desconhecido. Naquele momento minha mente apelava para a razão – não faças isso tu és comprometida –, mas por outro lado era como se meu corpo e todos os seus órgãos tivessem força própria ao ponto de atear mais fogo àquele momento fogoso.  Deixei-me envolver pela forma louca de como ele (o jovem) flertava e beijava-me, de como nossos corpos de tocavam em suspiros rajados de paixão e do intenso momento de amor e prazer que tivemos ali… E, desde então, sobre aquela noite não me têm faltado arrependimentos.
Hoje, cada vez que me tocas, que me ligas e chamas meu nome, “Mor” – todas às lembranças vil daquele momento de loucura e embriaguez me vêm à tona. Cada lembrança preenche meu coração de remorsos. Agora sei que arrependimentos e remorsos não matam, mas também não nos deixam sossegar à mente, nem nos permitem ter uma noite de sono tranquila sequer.  Pelo menos nunca experimentei a morte, mas tenho provado desse amargo fel que é o remorso e me mata pouco a pouco por dentro.
A verdade é que só meu diário conhece as minhas angustias e confissões, ele tem sido minha companhia nas madrugadas de insónia e lágrimas. É nele que faço meus desabafos secretos, nele escrevo um futuro mesmo que incerto. É nele que rascunho a vida – a minha, dos outros e dos que me cercam –, meu diário não fala, mas sabe ouvir em silêncio às minhas memórias difusas. Meu diário não vê, mas é como se fosse parte de mim mesmo que vive em mim e conhece-me tão intimamente como quando me perco no calor dos teus braços meu amor. É ele que ensinou-me compor para (des)amargurar a vida e continuar vivê-la. E, para o bem do nosso relacionamento vivo como se nada tivesse acontecido.


Oliveira Prazeres, in Confissões Que Elas Nunca Fariam