04 junho, 2015

As notas do nosso amor



De todas as formas de arte, que dominavas com tamanha mestria, a música era a tua favorita. Passavas manhãs a escrever, tardes a dançar, noites a representar e as madrugadas eram reservadas para fazer magia com os sons.
Gostavas de tocar guitarra, baixo, violino e piano... Este último, era o que me causava mais admiração e imensa curiosidade.
Sentavas-te num banco e analisavas os papéis dispostos a frente do piano... Sempre ralhaste comigo por chamá-los de papéis em vez de partituras. Eu desculpava-me, mas voltava a cometer o mesmo erro depois de vinte minutos.
Honestamente, nunca compreendi metade das coisas que me tentavas explicar sobre pentagramas, claves, mínimas e semi-mínimas.
Não percebia como eras capaz de traduzir as notas, fazer corresponder cada som a uma tecla e transformar aqueles rabiscos em melodias tão bonitas capazes de converter o íntimo de qualquer alma mundana. 
Tu sorrias e, a resposta dos teus lábios aparecia em forma de beijo no meu rosto e um olhar que mostrava perceber plenamente a minha ingenuidade. 
Uma coisa que nunca permitiste era que eu negligenciasse a tua arte, que olhasse para ela como nada, apreciasse com olhos breves ou que a ouvisse com os ouvidos poluídos pelo ruído do mundo. 
Pedias-me atenção, entrega e paixão.

''Esvazia-te de ti mesma. Permite que eu te preencha.'' 

Ordenavas antes de começar a tocar. 
Acatando a tua ordem, eu desnudava-me de todas as minhas crenças e abria-me para novos mundos, aqueles que juntos iríamos desvendar.

Assistir-te e ouvir-te tocar sempre foi uma viagem para outra dimensão, não só em termos de espaço mas também temporais. Eu ouvia-te num pretérito distante, num presente constante e num futuro mais-que-perfeito. Fechava os olhos e logo percebia que não estava em lado nenhum, mas em todo lado... ao mesmo tempo.


Na tua subjectividade, eu encontrava a minha realidade. Apesar de não saber o que te fazia passar anos trancado num universo particular feito de arte, eu amava acompanhar-te.
Queria conhecer cada centímetro do teu corpo, viajar nos recônditos mais profundos da tua mente, mover-me na tua dança, perder-me nos teus encontros e, acima de tudo, desejava perceber se tu eras feito de quê... Eu podia jurar que aquilo que te constituía não era a matéria dos humanos... olhava para ti como alucinação, sonho, estrela cadente, imaginação...


Colocas-me sentada no teu colo, e tocas ainda assim... ao som livre e melancólico, a alegria oculta nos gestos clandestinos... 
— A vida não me basta, Kayla. Estas verdades não me alimentam.
Revelaste, num murmúrio... bem pertinho do meu ouvido. 
Paraste de tocar para me abraçar. 
Não compreendi o propósito da afirmação. Quais verdades? O que foi que moveu a tua vida até então?
—É por isso que eu faço arte... é por isso que eu faço música.

Afirmaste e, ainda que silencioso, outro som ganhou vida numa tecla. 


Foi quando eu percebi que tu passavas a vida em busca de respostas, a recolher pequenas explicações que a humanidade não dá, informações que o universo esconde. Criavas doces mentiras nos teus textos, na tua dança e na tua música... convencias o mundo de uma coisa que só existia na tua cabeça, fazias arte para desvendar o que está além da existência.

Calaram-se as minhas questões, dissiparam as acusações. 
Percebi que, tal como o amor, a arte não pode ser questionada. A arte deve ser apreciada com alma despoluída e os olhos livres.

No encaixe perfeito, lembrei-me de uma frase de Virginia Woolf:

''Realmente, eu não gosto da natureza humana, a menos que esteja toda temperada com arte.''

Esta era a tua matéria, estavas temperado com ela. A arte era a flor da tua pele, e eu amava-te por isso.

Obedecendo os passos da serenidade, virei-me para trás e beijei os teus lábios... Entrelacei as nossas mãos e pedi que tocasses a música que nos uniu. Aquela que tocaste no primeiro dia em que te vi, naquele concerto alusivo a música estrangeira. 
Lembraste com timidez, e sorriste com excesso de amorosa embriaguez.

''Obrigado por me deixares preencher-te.''

Agradeceste e tocaste, por fim... e as notas eram certas, adequadas para aquele momento. Eram as notas do nosso primeiro encontro, as notas do nosso amor. 

Dó com baixo em dó

Sol com baixo em si

Lá com baixo em lá

Lá com baixo em sol

Fá com baixo em fá

Fá com baixo em fá sustenido

Sol com baixo em sol

Sol com lá bemol

Dó maior com dó

Sol maior com si

Lá menor com lá

Lá menor com sol

Fá com baixo em fá

Fá com baixo em fá sustenido

Sol com baixo em sol

Sol com lá bemol