02 junho, 2015

Sopro de despedida num sentimento ainda sem nome



Elizandro,

Sou eu. Desculpa-me por estar a telefonar nesta hora de confusão. São 03 horas da manhã e sei que estás na tua habitual guerra com as estrelas, mas eu não consigo dormir.
Andas em voltas na minha cabeça, e no meu coração martelas recordações recheadas de nostalgia e vontade de regresso. 
Não preciso de respostas. Só peço que me faças companhia nesta madrugada tão triste, que me ouças e faças sentir outra vez o prazer de ter alguém com quem partilhar os momentos do meu dia, desde a ida à padaria até aos problemas da minha família. Tu sabes... São tantos! Ontem os meus pais lutaram outra vez, o pai atirou a mãe contra o sofá sem se importar com a Luna, que estava lá a descansar. Ela gritava e chorava tanto, Elizandro. Tu nem imaginas o quanto o meu coração despedaçou-se. Coloquei-a no colo e corremos para o meu quarto. Trancamo-nos.
Eles, na sala, continuaram com a guerra de corpos e línguas. Diziam palavras tão feias que me fizeram questionar as razões pelas quais continuam juntos até hoje.

É o amor! Eles dizem.
O que é este sentimento? Para além de uma incapaz gota de água no oceano?
O amor é uma mentira, Elizandro... e eu não quero acreditar nele.
Qual é a pessoa que bate em nome do amor? Que trai pela sua ausência e faz promessas de morte a quem diz amar? 
Não consigo compreender. 
(...)

Hoje senti a tua falta de um forma tão profunda, que cada pulsar do meu sangue chamava pelo teu nome. Embora acredite que todos já nascem completos, vejo-nos como a excepção. Um só, dividido em dois. 
Desde que coloquei a minha cabeça na almofada, as lágrimas fizeram-se presentes e, agora, enquanto falo contigo, lamento porque quero estar num lugar que já não existe: ao teu lado.

(...)

Ontem, enquanto folheava as páginas do meu diário, encontrei uma das flores que me ofereceste no dia do meu aniversário... já seca e sem cor. Não me lembrava de a ter guardado, e nem pensei que estivesse aqui por tanto tempo.
Foi então que pensei no teu sorriso brincalhão, nas calças a cair e nos teus suspensórios tão indispensáveis... Reproduzi a minha frente, no escuro do quarto, a cena daquele dia ensolarado:

Tu estavas a andar de skate e paraste no meu portão. 
Uma.
Duas.
Três.
Quatro.
Cinco.
Seis.
Eram seis flores... todas da mesma cor.


Tu sempre soubeste o quanto eu detestava cor-de-rosa, mas também sabias que eu amava flores. Então, não perdeste mais uma oportunidade de me fazer querer matar-te e beijar-te ao mesmo tempo.
Falavas do meu jeito indeciso, da minha maneira receosa de me entregar: dois passos para frente e três para trás.
Fazias declarações de amor, e recebias baldes de água fria em troca. 
Falavas-me sobre mil coisas e eu concluía com poucas palavras. 
Eras a minha outra metade, mas eu olhava-te como parte independente.
Sentia algo tão forte por ti! Só não sabia como nomear aquele sentimento. 
Juro-te que nunca faltou reciprocidade, nunca faltou vontade e sempre houve verdade. 
Cada um dá aquilo que tem, tu me davas o que chamas de amor e eu te dava algo muito mais avassalador... 


Lembro-me do cacimbo de 2014, quando eu fugi de casa por não aguentar mais aquele ambiente destrutivo. Não tinha onde morar, e tu não podias levar-me para o apartamento dos teus pais. Não me esqueço das palavras que me disseste: ''onde tu estiveres, eu estarei.'' 
E assim, moramos juntos na tua carrinha, durante duas semanas... e fizeste a pergunta que assinalou o começo do nosso desfecho.

— Amas-me?
Um nó formou-se na minha garganta, e a impaciência brilhava nos teus olhos escuros.
— Como é que posso te amar, se nem sequer acredito no amor?
A impaciência do teu olhar, desfez-se em estilhaços de vidro, e a tristeza tomou lugar... sem dizer coisa alguma. O nó desfez-se da minha garganta, e outras palavras formaram-se: 
— O que sinto por ti é algo muito mais fixe do que isso.

Tu não querias ouvir aquilo, não estavas disposto a perceber a minha forma de entrega. Querias seguir as leis do mundo, enquanto eu queria que criássemos as nossas próprias. 
Naquele momento, como que por um instinto, quase inconsciente... convidaste-me para fugir contigo e nunca mais regressar. 

Eu iria aceitar, porque qualquer lugar seria um paraíso ao teu lado.
Eu iria aceitar, porque já estávamos mesmo fora de casa e tínhamos pouco a perder.
Eu iria aceitar... até que me lembrei da minha Luna, a minha mana mais nova.

Imaginei como estavam a ser os dias dela sem mim... repensei na violência e nas constantes bebedeiras dos meus pais... pensei no quão egoísta fui por ter abandonado o barco, deixando-a lá para afundar... 

Recusei a tua proposta e disse que precisava de voltar para casa naquele instante. Tu não disseste sequer uma palavra, entraste para o carro, e começaste a conduzir... Lá atrás, tapada com um lençol xadrez eu chorava as lágrimas do nosso fim.
Quando estacionaste no meu portão. Eu desci. Perguntei se estavas bem. Disseste que sim. Os meus olhos não viram a verdade em tinta desbotada a escorrer pelo teu rosto. 
Então, sorri e abafei os soluços da tua alma. 
Tirei a minha mochila do carro. Pedi que conduzisses com segurança e avisasses logo que chegasses.
Deixei-te ir embora... 
o meu dedo em círculos passeou pelos teus lábios e deles saiu um sopro de despedida. 

(...)



Aquele foi o último dia em que te vi, e já passou tanto tempo! 
(...)

Enquanto falo contigo, a Luna dorme nos meus braços. Ela está tão crescida! Já começou a ir para a escola. Acreditas? Tenho tentado dar a ela todo o carinho que os meus pais não conseguem dar.
(...)

Espero que tu e a tua família estejam bem. 
Agora, depois de ter falado contigo, sinto-me bem mais leve e posso dormir em paz!
Desculpa-me por te ter acordado, mas eu já não aguentava este silêncio atormentador.
Antes de desligar, quero que saibas de algo: Alguns sentimentos são tão nobres que ultrapassam o vocabulário humano. O que sinto por ti é assim...

Elizandro, eu posso não acreditar no amor, mas em ti... meu bem! Em ti eu sempre acreditei... és mais verdadeiro do que ele.

(Chamada terminada)