31 agosto, 2015

O sino.


Levemente, apoiou a cabeça sobre o ombro de Odette e deu um leve suspiro. Já a roupa tinha abandonado o seu corpo, e embora o frio o dilacerasse Jorge não se importava. Estava anestesiado a todo e qualquer tipo de sensação. 
Não pronunciou palavras, mas o desejo do seu íntimo era apoiar o coração sobre o de Odette. Pois o peso do existir queimava-lhe o peito. 
Fechou os olhos. Ela permaneceu com os seus abertos: Diferente de Jorge, Odette recusava-se a perder um segundo da realidade.

— Ao teu lado a vida é mais leve. — Balbuciou antes de segurar a mão dela.
— A leveza tem de estar contigo, Jorginho. Porque as pessoas são breves, as pessoas vão embora.
— Mas, tu...
— Eu também vou embora, Jorginho... Um dia eu desapareço.

Suspirou mais uma vez. Ainda com os olhos fechados, anestesiados. 
Noite de Agosto, o frio na dança de despedida.
Odette tremeu, e sorriu: Sentia-se viva. 
Jorge. Soltou uma lágrima. Apenas num dos olhos. Apertou mais forte a mão dela e já o coração queria saltar do peito e abrigar-se em Odette.

— Mas eu não sei viver. Eu não conheço esta vida. — Confessou, ao lembrar-se de que a vida devia ter um manual de instruções.

Odette fechou os olhos. Jorge limpou a lágrima.
— Meu querido, a vida nada mais é do que o intervalo entre o nascimento e a morte. Queres ficar parado até que o sino toque?

Odette soltou a sua mão. Jorge Abriu os olhos.

(Silêncio)