15 março, 2016

A ausência

Autor: Geraldo Gomes


Uma vez alguém me disse que quem muito se ausenta deixa de fazer falta. O meu primeiro pensamento em reação à esta máxima foi uma pergunta: é essa a verdade? O que foge no horizonte não deixa nenhum rastro antes de sumir? Será que a fumaça, por mais fina que seja, não deixa um pouco do seu calor? Fiquei bastante reflexivo, e triste. Algumas vezes a ausência é necessária, até mesmo para aqueles que insistem em ficar, e nesse caso é mais doloroso. Já fugi, confesso, mas também já deixei que fugissem de mim. Se se foi de mim não é razão para acreditar que já não me queria mais por perto, mas para ter certeza que no fim, ou sempre que a oportunidade permitisse, eu seria um ponto de parada. Nesse mundo há árvores que de tão antigas de espírito, criam raízes num solo mas levam suas folhas altas para refrescar outras terras castigadas pelas pragas da vida. É por necessidade de trazer bons ares que foi, e é por puro prazer de voltar ao lugar seguro que volta. A paciência pela chegada também é amor, assim como a sensibilidade de saber receber de volta. Tem que se entender a liberdade para não destruir, por descuido, as raízes que ficaram. E digo isso para que por mais que se deseje a presença, anseie mais por dar espaço para que não sufoque a árvore com tanto abraço. À isso se chama possessividade. A mesma possessividade de quem aprisiona pássaro em gaiola e ouve seus gritos de desespero pensando ouvi-lo cantar harmonias. Não há liberdade, nem felicidade. O que voa sabe que existe um momento em que é preciso voltar.