30 março, 2016

Desconheço o amor

Autora: Vanessa Neto

Alma fria, coração indolente. Não sei amar inconscientemente.  O meu coração paira nas redondezas sempre que o amor se faz insistente.  Diante do amor sou um desconhecido, desconheço a dor que faz do amor o seu melhor abrigo.
Não sei amar. Vejo-me todos os dias a tentar apaziguar a minha doce alma com este sentimento, que desconheço desde que me conheço.

Olho para todo o mundo e cresce em mim a vontade de ter o que nunca tive, um amor.
Acordo, pego a minha xícara de xá e delicio-me com o seu  vapor. Suavemente, molhando os lábios, bebo tranquilamente. No meu sossego. E logo surge aquele turbilhão de emoções dentro de mim, o meu coração fala. Como o xá, quando está quente ,enquanto deita o seu vapor. Carente, ele se pronuncia e silenciosamente grita. 

E como se não bastasse, a minha mão treme por ver-se aflita e deixa cair a xícara. Sonhos, liberdade , independência, vontade e lealdade. São todas as coisas que vejo no chão , agregados ao xá que tomo quando essa xícara se parte. 
Olho para tudo e tenho uma sensação de déjà-vu: É tudo que guardo dentro de mim e alimento com emoção. Sonhos que me fazem querer sempre mais: querer ser nómada, sem me prender num único lugar. Poder viajar ou sair sem avisar. Simplesmente porque sonhei e acordei para realizar. Porém,não sei se quero partilhar.

E essa vontade contraditória que tenho de aprender a amar. Não sei. Quero aprender a me apegar, inconscientemente amar , sem nada questionar.
A lealdade que tenho pelo meu próprio carácter proíbe o meu coração de amar por amar. Ele quer que eu ame a pessoa certa, e toda a pessoa que aparece é sempre incerta.

Ninguém vem com rótulos, apenas o tempo pode revelar. Por isso tenho medo, prefiro me resguardar.
Sou livre e assim quero permanecer. Se for amar que seja livremente. Que seja um amor que não me prenda e nem me sufoque. 
Sou independente. Não dependo de ninguém para que o meu dia esteja mais alegre. É sempre a mesma coisa,  uma constante monotonia.
E é assim todos os dias, recolho os cacos, e guardo-os comigo porque me sinto vazia.