31 março, 2016

Diário de bordo de um coração andante

Autora: Laine Ferreira

Confesso a vocês que eu estava cansada. Todos os dias eram sempre iguais, me matava o diminutivo, esses tantos “inhos” e “inhas”: o empreguinho, o salariozinho, o namoradinho, a casinha, os casinhos, as festinhas. Minha alma ansiava por superlativos, por umas gotas de caos e diversão, sair sem hora de voltar, morrer de paixão, conversar sem ver a hora passar e acordar cheia de energia para criar. Acordei assim: Esganada, fatigada das migalhas de viver. Que fome... de vida, que sede... de mudança.
Tomei coragem e fugi. Pode parecer contradição, mas a fuga foi a coisa mais corajosa que fiz na vida. Abandonei todos os meus anões de estimação (os “inhos”) e virei “ão”, fui transição, transformação, super nova em ebulição. Estava louca para agarrar o mundo e recuperar todos os segundos que perdi tentando agradar cada pessoa que conheci. Fui tantas outras mulheres que precisei me perder para me encontrar – lá no fundo, soterrada entre as bobagens que guardava no coração, cheio de sonhos mumificados, dores guardadas, pedaços que não se encaixavam. Havia tanto o que jogar fora.

Nesse cansaço da vidinha conheci ele, o bater de asas do efeito borboleta que virou furacão,  virou minha cabeça, virou minha vida do avesso e chacoalhou todo o dia-a-dia até me quebrar em pedaços.  Foi amor desde o primeiro instante, sei lá, quando é de verdade a gente sente, é diferente. É um olhar que mergulha dentro de você, e então podes sentir que alguém te viu de verdade pela primeira vez na vida. Eu tinha tantas teorias e definições do amor, e aquilo que vivi contrariou tudo que li nos livros e revistas. Porcaria de romantismo barato! Pode parecer maravilhoso, mas na verdade é assustador saber que serias capaz de (quase) tudo por um semidesconhecido. Isso deixa qualquer um desestabilizado, confuso, bipolar.
Tive muita culpa no desfecho de tudo. Naquela época eu era uma armadilha andarilha,  buscava qualquer tumulto que fizesse o coração bater mais forte, queria dopamina em doses desumanas, mas aquilo foi mais do que pude suportar. Ele era overdose, tão intenso, tão livre, que presa nos meus velhos conceitos e regras (aqueles mesmos dos quais fugi) não consegui ser madura o suficiente, desapegada e segura o bastante. Foram muitas recaídas sentindo falta da segurança dos dias comuns. Simplesmente não deu. Eu via nosso amor escorrendo entre meus dedos, mas não tinha idéia do que fazer para deter a caminhada em sentidos contrários. Ele era tudo que eu queria ser e procurava, mas eu não era o que ele precisava – ainda. Eu seria em breve, mas não era justo pedir para ele esperar sentado no olho do furacão. Éramos o sonho um do outro só que em noites diferentes.
Decidi deixá-lo ir antes que não houvesse amor para recomeçar, e esse era o meu plano, fazer a minha jornada sozinha, viver meus sonhos e experiências para ter mais do que uma alma esfomeada para oferecer, não queria ser um zumbi me alimentando dos pedaços dele. Sofri, não tenho vergonha nenhuma de admitir que meus olhos viraram cascatas. Me catei do chão como pude e montei outra com os cacos que sobraram, e devo admitir que essa outra – o meu novo eu, ficou bem melhor que o anterior. Sério, agora sim posso dizer: Essa sou eu. Aprendi ser singular para poder um dia me encaixar no plural. Consegui ser feliz sozinha, e vivo muito bem obrigada.

Ainda não sei bem quando será, mas estou pronta para reencontrá-lo, e se isso nunca acontecer vou apenas deixar um bilhete na porta dizendo: Quem sair por último desse amor apaga a luz e tranca a porta.