31 março, 2016

Direitos

Autor:Geraldo Gomes


O mais difícil mesmo é esperar do outro o que nunca foi de sua obrigação. Respeito e amor, por exemplo. Nunca cobre, não são obrigações. Se cobrar perde-se a dignidade, perde-se o direito de receber. Respeito e amor são méritos de consciência, de bom senso, de entender a necessidade humana que se tem pelo bem estar: pela harmonia do grande e complexo universo que é um ser. O que não respeita é ferido, é lesado pelas garras de lâmina dos males da própria existência; o que não ama é triste, e solitário. Quem ama tem o mundo todo para amar, porque amor é infinito constante e sempre avança à um horizonte sem molduras. Pede-se por amor, já não é mais amor: é outra coisa. E quem recebe outra coisa na esperança de estar recolhendo amor acaba no fim enterrando a si mesmo na cova funda da desilusão. Ninguém cobra amor. Se cobra é porque nunca o recebeu de fato. Como a flor que é regada de ácido e na sua inocente ignorância banha-se charmosa só para descobrir que está definhando pelo o que sempre acreditou ser água.
Mas eu sempre espero. Sempre espero do outro o que eu com tanta dedicação entrego. Não é um dar - é um emprestar, porque depois quero de volta. Quando recebo, sou tomado pelo o que se chama de gratidão, porque é assim que deve ser: o ditado não deveria ser "aqui se colhe o que se planta", mas "aqui se planta o que com muito esforço os pássaros doentes trouxeram no bico e deixaram cair no bom solo". Não cobro amor de ninguém, ama-me se achar que mereço. E aqui amor significa todo o tipo de bem-querer. Não cobro justamente porque quero ser querido apenas por ser: se sou bom solo, se dou em troca o que muitas vezes não recebo, se o que mais me ocorre é essa falta de espírito humano na humanidade, então o que posso querer? Apenas amor. Mas não é um pedido, é um convite.