07 março, 2016

Eu ignorei os sinais



Sozinha, triste e desolada, vejo-me aqui sem ter escapatória, dessa vez o meu coração está completamente partido, acho que depois dessa já não há concerto possível. Fico repetindo os flashbacks na minha mente e percebo que estava tudo claro desde o início, tu sempre tentaste mostrar-me quem eras na verdade e eu evitava enxergar-te como realmente eras... Ah! eu e essa minha mania de fantasiar a realidade!

Lembro-me a primeira vez em que aconteceu, foi por uma mensagem daquela menina que dizias ser tua colega do curso, eu perguntei o que havia entre vocês, foi aí que tudo começou. Tu foste tomado por uma fúria e sem hesitar arremessaste um copo contra mim, os primeiros sinais apareceram e eu ignorei. Tentei convencer-me de que foi algo impensado, uma reação inconsciente e que não voltaria a acontecer, tu te desculpaste e eu disse que te amava.

Mas o tempo passou, as agressões foram tornando-se frequentes e quase sem motivos. Tu gritavas, ofendias-me e arremessavas tudo o que pudesses contra mim, e eu... eu sempre tentava justificar, sempre achava uma maneira de culpar-me, cobria os hematomas com alguns quilogramas de maquilhagem e seguia a minha vida ignorando todos aqueles sinais. Dia após dia fui evitando as coisas que te deixavam chateado e te tiravam o controlo, tornei-te o centro da minha vida e passei a ser a pessoa que precisavas ter ao teu lado, mas ainda assim tu não te sentias satisfeito e achavas sempre alguma razão para quebrar algum objecto em mim.

E então chegou o dia de hoje, lembro que foi por uma mensagem da operadora, mas tu não sabias que era da operadora e nem deixaste explicar. Foi suficiente para quebrares tudo novamente. Tudo! Inclusive meu coração que já se desgastava com o tempo de maus tratos. Esse foi o único dia em que eu tentei defender-me, eu já não podia suportar mais! De tantos pontapés que recebi, eu sentia como se todos os meus ossos estivessem partidos. Com algum esforço juntei minhas forças e peguei a primeira coisa que consegui alcançar, era um copo, um copo igual ao que arremessaste contra mim a primeira vez, um copo relativamente menor do que tudo que já jogaste contra mim, mas foi esse copo, esse único copo que usei numa única tentativa de defesa que tirou-te a vida e eu encontro-me aqui sentada ao lado do teu corpo e culpando-me mais uma vez, dessa vez meu coração está completamente partido e sei que depois disso não há concerto possível.

E no final de tudo isso, a dor e a culpa tomam conta de mim, eu poderia ter evitado tudo isso se não ignorasse aquele primeiro sinal. Eu poderia ter feito diferente e, esses sentimentos me assolam, o pior de tudo é que não perdi só a ti, perdi a mim também... e a dor dessa última perda é devastadora.