05 março, 2016

Os Dias de Lúcia



Lúcia tinha 33 anos. Há 9 era mãe e há 14, esposa. Nas manhãs em que Lúcia acordava, colocava as pantufas muito usadas nos pés e, ainda com os olhos fechados, ia do quarto até a cozinha. Colocava a água do café para ferver, verificava pela janela se estava nublado ou fazia sol, respirava fundo o ar estável da cozinha e ia até o banheiro. Urinava e escovava os dentes, e os únicos barulhos que a casa ouvia era o da descarga e o da água corrente da pia levando seu hálito embora. Ia até o quarto, dava um beijo com os lábios frios e úmidos em seu marido e assim o acordava para um longo dia de trabalho. Ele se espreguiçava, bocejava, sorria e, depois de levantar, lhe dava um beijo quente. O coração de Lúcia se aconchegava. Lúcia não se importava se seus cabelos estivessem desarrumados e seu rosto ainda estivesse um pouco inchado da noite de sono. Seu marido também não se importava. Assim, juntos, iam para a cozinha. A água do café já fervia e ela o preparava rapidamente enquanto esquentava o pão adormecido de ontem no micro-ondas. Não ficava bom, mas dava para passar a manhã. Seu marido passava manteiga nos pães recém aquecidos enquanto ela acordava seu filho. Ele reclamava enquanto ela balançava seu corpo molenga de um lado a outro, mas no fim Lúcia acabava vencendo. Ele coçava os olhos, se espreguiçava e bocejava ao ir para a cozinha se juntar a seu pai no café da manhã. Lúcia ficava no quarto arrumando o uniforme que o menino iria usar para ir à escola dali a poucos minutos. Depois, quando eles já estavam no fim da refeição, ela se juntava a eles. Dessa forma, quando eles terminassem, ela ainda comia metade do seu pão que já estava frio, e que não podia terminar de comer, pois tinha que acompanhar os dois até a porta, dar um beijo diferente em cada um, desejar-lhes bom dia e, sorrindo, fechar a porta. Lúcia voltava ao seu café morno e ao pão duro. E enquanto beliscava um pedaço da casca do pão e sentia nos lábios o café esfriando, Lúcia se sentia vazia. 

A partir daquele momento, a casa seria sua hóspede, e até mesmo o mais silencioso dos tic-tac parecia lhe soar bastante claro. Tudo se expandia e, em sua vaga percepção de espaço, era como se mais cômodos surgissem e implorassem pela sua presença. Lúcia se encarregava de fazer a limpeza de uma forma muito minuciosa, nada podia ficar sem seu toque, sem seu olhar cuidadoso. Lavava os pratos e se perguntava se a comida que se empertigava nas bordas da louça agradou seu marido, ou se fazia bem para a saúde do filho. As mãos eram rápidas, e de alguma forma a concentrava no que estava fazendo, de forma que só sabia que havia lavado e enxaguado todos os pratos e talheres e copos sujos quando só havia a espuma sobre a pia. E aquilo a fazia se sentir aflita. Por um rápido momento ela poderia se perceber entrando em choque. Dava as costas à pia, e colocava um pouco de água no canteiro de flores que ela cultivava na borda da janela da cozinha. O sol parecia amistoso, e abandonando de vez o pequeno e repentino choque, Lúcia se deixava aquecer pelo sol. Fingia-se de flor e recebia os raios de olhos fechados. Isso a acalmava. Mas logo lembrava-se que daqui a algumas horas teria sua vida de volta, e por isso tinha que se apressar. A casa a lembrava disso, e ela corria contra um tempo imposto por ela mesma para terminar cada pequena tarefa doméstica. Quando finalmente terminava, pouco antes do meio-dia, exausta, Lúcia tomava um banho muito rápido. Enquanto deixava-se regar, tinha a preocupação de buscar seu filho na escola, poucas quadras de sua casa. Não era realmente longe e ele poderia vir sozinho, mas ela se sentia inquieta apenas por pensar nisso. Lúcia se arrumava e se perfumava como mulher e, sentindo-se lavada, saia de casa. Mas o mundo do lado de fora de sua porta parecia lhe manchar pouco a pouco, era instável e essa sensação não lhe agradava. Por esse motivo, andava em passos largos e rápidos pelas calçadas até chegar à escola, onde buscava o filho e voltava da mesmíssima forma para casa. 
O menino reclamava pela pressa da mãe, mas Lúcia, ainda aflita, prendia a respiração e só a libertava quando chegava em casa, para respirar aquele ar conhecido e que ela tinha certeza que não lhe era agressivo. Ajudava o filho a trocar de roupa e depois o mandava brincar no quintal com seus brinquedos muito gastos para que ela aprontasse o almoço. Como ela sabia que o marido não faria a refeição na mesma mesa que eles, sempre fazia as mesmas receitas "de semana". As receitas de "sábado e domingo" eram as que preparava quando seu marido estava em casa. Isso, em seus pensamentos, era o certo. Conforme as horas passavam e em sua vida só lhe ocorria a brisa que vinha da janela e do fundo de sua alma, Lúcia tinha que se manter ocupada. Lúcia não podia ficar muito tempo em inércia, porque isso lhe fazia pensar demais. E isso era terrível. Seu filho não lhe cobrava muito e todas as tentativas dela para conseguir que ele lhe exigisse eram em vão. Ele estava imerso em sua imaginação de criança e brincava como criança, enquanto ela era inundada pelas horas desiguais que via no relógio, e isso começava a assustá-la. Sentava-se, balançava as pernas pela ansiedade; tentava costurar para se ocupar, mas era perigoso manusear a linha enquanto tremia de ansiedade. Não dormia durante o dia, isso não podia. Se dormisse, seu filho poderia precisar dela e ela não estaria disponível e isso arruinaria totalmente a sua frágil existência. Para se manter acordada,  ela inventava receitas, mas não cozinhava. Eram apenas experimentos de coisas que ela sabia que não iria se realizar no futuro, mas não era completamente banal. Isso a ajudava a permanecer viva durante o dia, até que, no final dele, junto com o pôr-do-sol, seu marido viesse. Daquele momento em diante, a noite era apenas uma vaga lembrança do que foi o dia e disso ela não poderia se queixar. Fazia o jantar, colocava o filho na cama, dava um beijo no marido, e, agora sim, poderia dormir. Estava bem assim, conseguira realizar mais um dia.