09 março, 2016

Sejamos todos libertadores




É curioso o tipo de reflexão que surge na mente após cada pequena experiência e contato com outras pessoas. Gosto sempre de aproveitar cada pedacinho de vida e momento para fazer uma atualização rápida nos velhos pensamentos, e assistindo o filme “Libertador” – cotado para uma indicação de Melhor Filme Estrangeiro no Óscar de 2015, do diretor Alberto Arvelo, estrelado pelo ator venezuelano Edgar Ramírez no  papel do militar e político Simón Bolívar, que foi o líder da maior das revoluções contra o imperialismo espanhol na América  Latina, pude ter uma nova porção de introspecções imaginativas correndo soltas pelo cérebro. Não venho aqui querendo elogiar ou criticar o filme, esta é pura e simplesmente uma análise do que senti ao conhecer Bolívar pelos olhos de Arvelo.
Confesso que simpatizei pelo homem idealista, que a princípio carregava no peito uma vontade apaixonada de lutar pelas mudanças que acreditava. Bolívar tinha essa urgência de transformar o mundo que todos nós jovens temos, mas como muitos de nós seus ideais aos poucos se mostraram bem mais difíceis de colocar em prática do que o imaginado. Seus sonhos de liberdade e união para a América do Sul, vendidos em seus discursos ao povo falavam diretamente ás emoções e anseios daquela gente sofrida que escutava-o e imediatamente acolhia suas palavras como suas, pois deles também eram aquelas expectativas de uma grande nação forte e justa.

A cena do filme que mais me impactou e causou pontos de interrogação na cabeça, foi uma na qual ele após ser capturado pelo exército espanhol, recebe como punição o exílio para a cidade de Cartagena despojado de toda sua fortuna e prestígio social. Lá, ele que havia sido aristocrata, se viu em meio um ambiente hostil e precisou se adaptar. Não se iluda e nem imagine as belas praias, água de coco e resorts que hoje colorem as famosas praias colombianas, o coitado foi parar no meio da selva, e lá depois de perder tudo, ganhou um novo mundo, um novo eu. Seu momento catártico foi o roubo de suas botas, onde houve o confronto de seus valores com os seus interesses pessoais, na exata hora que ele entendeu o significado de dividir e do quão brutal é a força do querer e luta pela sobrevivência. A meu ver, neste emblemático momento, nasceu o revolucionário, apesar de Simón já estar em meio as batalhas, só a partir da perda de seu último e mais importante bem – seus sapatos, ele realmente se tornou líder da busca da dignidade de sua terra. Afinal, pergunto-lhes eu, de que somos feitos todos nós senão de desejos, sonhos e lutas?
A grande pergunta que me veio à baila é: De quanto estamos dispostos a abrir mão para que os demais possam viver, e não apenas sobreviver? Imediatamente imaginei se seria, eu própria, capaz de ter menos conforto e bens para que outros irmãos pudessem ter casa e comida. Imaginei se poderia dispensar o carro, para alimentar crianças órfãs, imaginei se teria coragem de vender algum bem para curar alguns dos seres que morrem a míngua e sem esperança nas filas de hospitais ou mesmo em seus casebres velhos, no meio das ruas, sem uma palavra de consolo, sem um gesto de compaixão. Perguntei-me enfim, qual a liberdade desejo para nossa sociedade e se nela caberiam todos os homens, ou apenas o meu ego feliz numa casa a beira do mar, escrevendo e curtindo a vida. No final de minha incursão ao meu âmago, defrontada pelas perguntas que temo encarar as respostas, Simone de Beauvoir me disse baixinho ao pé da imaginação a única verdade suficientemente razoável de se escolher: “Querer ser livre é também querer livres os outros”.