29 março, 2016

Tentar

Autora: Irina Ginga




Sentada no parapeito da minha indecisão, vislumbro apenas pequenas nuvens de nada.
Nada me impede, nada me segura. Apenas minhas ânsias e as arestas de dúbios limites que se construíram em mim com o tempo.  São ideais e pre(con)ceitos ao cubo. Delineadores de acções e reacções. Expressões de mim: anos de memórias, verdades criadas e recontadas. Regras incontestadas.
Sorrio levemente. Aquele doce esgar do recanto da alma, sabem? Quanto de nós é realmente... nada?
O medo que nos impede, a insegurança que nos cativa.. ou até a soberba que nos mantém refém de nós mesmos. Quanto disso, na verdade, não significa nada? Tão assim é igualmente o nada que não assegura. Não há certezas, nem garantias. 
Sentada aqui no parapeito da minha indecisão o que vejo são nuvens carregadas daquilo que pensamos saber. Retratos instáveis de nós e dos outros.
Seguro o parapeito com força e estico o pescoço em busca de clarividência. Quase que aceito o impulso de mergulhar em queda livre. Sem mais questões, sem mais ponderar. Desta vez os meus lábios aceitam o prazer de um sorriso aberto. A Incerteza é aquela amiga descarada. Que faz em voz alta as perguntas que não queres responder. É o vento atrevido que levanta-te a saia sem aviso e te deixa nua, exposta: E agora? O que vais fazer?
Talvez funcione, talvez me magoe. Talvez perca tudo.. talvez ganhe o mundo!
Puxo a Incerteza para junto de mim. Tantas vezes brigamos mas ela de verdade não sabe que não poderia viver sem ela. Desafia o meu ser, mantém-me vigilante. 
Num abraço apertado sussurro-lhe ao ouvido que decidi aceitar que não sei, que não tenho todas as respostas.  Ela debate-se, num olhar confuso. Aí sou livre. Existe o tudo e o nada. Meu corpo estremece de gargalhadas nervosas. Rolamos pelo parapeito abaixo num salto sem retorno.

"O que estás a fazer?!", pergunta-me ela em sufoco. 
"Não posso fazer mais que senão... tentar." 

 "Tentar é a chama que incendeia a vida de conquistas"

Autor Desconhecido