05 abril, 2016

A mão negra de Deus

Autor: Geraldo Gomes

Ao silêncio lanço a minha solidão. Não, neste momento o silêncio é o único que acompanha a minha angústia. Que é que tenho sido senão a flama crua de uma vela ao relento? Não, ninguém me quer aceso. Que eu me acenda, que eu viva, que eu me queira sempre queimando. Ainda não me disseram com amor que ficasse; o que diz esse sussurro que interrompe o teu silêncio? Essa voz que sibila como o vento a crestar na relva a brisa súbita e sutil de um momento e que acaricia as entranhas na terra úmida, arrepiando até a raiz. O que sente na tua solidão? O ser humano tem na essência uma fragilidade que cria cascas e o deixa hostil e vulnerável: o ser humano não suporta a solidão. Não entende do fruto único que gerou todas as outras árvores. Engole com cólera a vida transformadora e lança-se ao egoísmo que é depender do outro para se sentir preenchido. Não, do Paraíso saíram apenas os anjos: o homem ali ficou, trancou os portões, e por puro egoísmo condenou a própria raça. Pois essa é a única vida que agora o homem dá: a outra, a que eleva — esta ele não tem concebido. O amor do homem cansa, a felicidade do homem o torna estúpido, sua tristeza não é real. Vive-se sem fé e não se importam; e os que vivem com fé são colocados em asilos e escravizados. Querem que o outro seja o que precisam mas não se importam com a sua vontade. O que tem beleza na essência é subjugado pela crueldade e covardia alheia. Os primeiros que caem são aqueles derrubados por quem tem coração enegrecido. E todos os dias dizem sobre o fim do mundo e apoiam nessa destruição a crença de que o caos é a resolução de todos os problemas. Diz-se que não tem mais gentileza no mundo, mas esta é a boca que escarra. E chora-se muito, e surpreende-se o tempo todo pela matéria efêmera e mundana. E criam os filhos sem ensinar-lhes o amor, e esperam dos filhos o amor que nunca ensinaram. E querem paz, mas fazem guerras. E odeiam o tempo inteiro, mas exigem amor. E quem se importa com a fome do outro é deixado a comer com os cachorros. E vive-se com medo e são dominados por ele, e querem dominar os que não temem. Esses que dizem sim e que sonham com o voo sem se preocupar com a queda e que fazem da fé a razão de ser. Esses animais brilhantes que ecoam no fundo do mar e brilham entre a escuridão que o cercam, estrelas mínimas e que zumbem no ouvido de quem não sabe brilhar. De quem não sabe acender a própria flama na maquinaria da existência. Esses que fazem da solidão um templo e do amor o alimento para a vida, aquela que transforma e que gera frutos. Os verdadeiros, os soterrados, os que vivem à beira, os que se entregam, os que se rendem, os que morrem de fome e gozam ao sabor do vento. Os que carregam na cabeça a guirlanda dourada de flores. Os que sofrem e amam até rebentar o talo nervoso do coração. Os que devoram a loucura. Os que saíram do Paraíso.

Como quereria arrancar da alma toda essa ira que me toma e é tão intensa e real. Como quereria que no meu peito ficassem presos só os bons batimentos do coração. Como quereria gritar toda a tristeza que hoje me consome. Mas agora só há o silêncio que invoca o sossego. Estou muito próximo da ira de Deus, estou tocando na palma negra da Sua mão.