08 abril, 2016

A rotina do homem invisível

Autora: Laine Ferreira

Todos os dias seu Jair fazia seu ritual matutino, acordava, tomava seu banho, fazia a barba, se perfumava, escolhia uma roupa bonita e saia todo satisfeito como se fosse para um encontro. Ainda em casa ia de regador em punho, molhando e contando as novidades para suas amigas da flora, para depois apanhar uma flor - não sem antes pedir desculpas para a planta, explicando-lhes que tinha uma missão importantíssima naquele dia e que suas amigas não se ressentissem pois ele voltava logo mais. O velhinho caminhava para a pracinha, sentava no “seu” banco, tirava um saquinho com milho, jogava um bocado no chão, esperava os pombos virem comer e observava.
Ele precisava ir e alimentar as pobres avezinhas, sentia que tinham muito em comum já que agora na viuvez, ele se sentia invisível e inútil. As pessoas passavam por ele e nem notavam sua presença. Ele e os pombos. Ninguém ligava se iam ou vinham, se estavam bem vestidos, limpos e tinham muito para contar, eram apenas criaturas indesejadas ou ignoradas. Assim ele escolhia uma moça que passasse, de preferência uma que viesse com o rosto preocupado ou triste, e entregava sua oferta desinteressada – a flor. Nunca falhava, ele via nascer nos olhos da desconhecida um brilho de luz que só as mulheres sabem oferecer quando presenteadas de surpresa. Com esse pequeno gesto, ganhava o dia e voltava para casa com a certeza de ter um trabalho vital a fazer a cada nascer do sol.


Seus filhos vinham a cada três meses para vê-lo e tentar convencê-lo a que se mudasse para um retiro para pessoas aposentadas, que para ele era só um nome chique para asilo, mas seu Jair batia o pé e não se rendia, ia morrer ali na sua casinha onde vivera feliz e havia visto seus meninos darem os primeiros passos e frases, a aprenderem a ler, a vê-los se apaixonarem pela primeira vez, a enxugar suas lágrimas quando caiam ou eram repreendidos. Ali também havia os traços de seu primeiro e único amor, D. Amélia, e deixar aquela casa e todas suas memórias e lembranças seria como abandoná-la com estranhos que invadiriam seu lar, que sempre havia sido seu abrigo, seu lugar feliz. Por mais que o dia houvesse sido difícil, quando entrava pela porta a esposa lhe sorria, e os filhos vinham correndo abraçá-lo, neste momento nada mais importava. Na verdade, isso era tudo que importava antes e continuava sendo tudo que importava agora, guardar o sabor dos sorrisos de ontem que ainda garantiam e enchiam seu coração de calor, porque por mais que o tempo houvesse passado e tudo já tivesse mudado, ele tinha suas paredes para lhe lembrar que sua vida tinha sido muito feliz e que tudo havia valido a pena. Esse é o sentido da vida e ele o havia encontrado.