15 abril, 2016

As casas sem filhos


Autor: Geraldo Gomes

Não fui eu quem rebentou o primeiro pranto que dilacerou o teu peito. Admito: sou culpado de muito, mas disso não. O que eu tinha eram sonhos furtados de potes de cristal, dobrados com cuidado e guardados em bolsos frouxos. Peguei o que primeiro me fez sorrir: e agora não sei mais ser feliz. Se você sente o mesmo, sinto muito. Sinto muito por não ter amado o suficiente, por não ter a disposição de ficar, por nunca ter lutado para não escorrer dos braços que se agarravam nos teus em desespero. Se não sabe amar, deixa quem sabe cuidar da tua dor. Respira fundo, o mundo só fica torto quando a cabeça pende. Respira fundo que hoje vai passar um tornado por aqui, e eu não tenho certeza se os pilares dessa casa vão suportar.
O que fiz por desejo não durou senão apenas um momento. O que fiz por amor desbotou; arrependo-me do que não fiz: expulsar do peito essa sensação de gula. Eu sempre quis tudo ao mesmo tempo, mas me fazia miserável até de mim mesmo. Que alma mais desgraçada essa... Poderia ter vivido mil vidas e em todas elas repetiria a mesma falha: a fome infinda do que me causa indigestão. Fui aprendendo com o tempo — só o tempo poderia ser paciente comigo quando ninguém mais seria. Eu fui só com o tempo, e com ele aprendi que o abandono começava sempre por mim mesmo. A mesma vontade que eu tinha de possuir me possuía; o instinto de ser, de viver, de sentir, me anulava no mundo. Eu me tornava a casca, a casa, e o ovo que não germinava. 
O que você tem aprendido dessa vida de erro? E por que é que tem confiado tanto no amor que não é teu para curar tuas dores? O primeiro beijo de carinho deve começar dos teus lábios. Essa tua tristeza te faz linda, mas você não suporta essa beleza. Sente-se comigo que eu não vou te olhar no rosto. Eu mesmo tenho tentado suportar a minha feiura; eu não te olho no rosto. Mas beija a tua própria face, primeiro.