22 abril, 2016

As Ruas Alvas


Autor: Geraldo Gomes

As ruas alvas não me agradam mais. A noite que cai, por mais escura, é o que me acolhe. A escuridão faz das minhas costas o berço de asas pesadas. Como voar? pergunto ao vento que surge quando respiro. Sem nenhuma resposta descanso a cabeça no travesseiro.
Não irei dormir, isso é uma ilusão. O sonho que se tem poda à noite minhas asas pesadas, mas acordo cansado pela manhã, como se tivesse batalhado mil vezes sem pausa para uma prece.
Mas não batalho, nunca batalhei. Meus conflitos são passivos ao mundo, diria condescendentes. Mas sinto-me cansado ainda assim, porque o mundo me cansa: o ceticismo do mundo me enfraquece. Sou pó, uma estátua invisível amando o que não se toca. Sou pó com a forma que o mundo me vê. Pois à minha vista sou disforme, tenho um corpo amorfo adaptável à vida, ao mundo, uma vez que o mundo não se adapta à mim. E me cansa tanto amor e desejo de zelo quando o que o mundo vê é uma casca da galinha – pois ao ovo não há preocupação em se ver, o ovo é o absurdo que evitam por medo do desconhecido. O ovo é a limitação humana.
E por que me importo com a falta de carinho no mundo? Porque o mundo sem carinho não é mundo: é a maior das mentiras. Não há felicidade porque não há paz na falta de carinho. Olhe nos meus bolsos e veja se encontra algo lá. Não. Olhe nos meus olhos, é lá que guardo meu carinho. No ovo.
Quando eu era criança, sonhava – não, pensava que havia algum tipo de comemoração universal, em um dia de tanta glória humana que tudo se aproximaria do esplendor divino, em que o céu se abriria numa claridão serena, o vento sopraria fresco e gentil, a grama, as pedras quadradas das ruas, a areia e toda edificação receberiam um esbranquiçar terno. Assim como o coração dos homens, onde haveria uma harmonia quase incômoda. E neste bendito dia haveria um tipo de amor grave entre eles, um respeito e comunhão difícil, mas atraente. Era a conquista do que se chama felicidade, pois que se necessita desse amargor para compreendê-la.
Mas eu estava apenas sendo criança. A rua alva era uma imagem de humanidade, e isso era ser feliz com a vida, com  mundo.
Ao crescer me dei conta da utopia neste pensamento. A ignorante inocência admitia esta utopia como me admitia ser criança. Mas “crescer” também quer dizer trocar de pele, dolorosamente. E nessa nova pele, já familiarizado com a dor, perde-se muito da sensibilidade da inocência.
Hoje – depois de relutantemente ter mordido a maçã – percebo que a noite me permite ser mais lúcido. A noite me engasga com os caroços que tive que engolir durante o dia e me faz vomitar. A noite é a minha obrigação de viver, é o aguilhão que me abençoa com o cansaço: ele existe com o propósito de felicidade, dando-me em troca a agonia. A pressão que se faz no meu peito é a que algum dia só aliviará quando o mundo descobrir o que é carinho. Aí não mais será utopia a felicidade.