27 abril, 2016

Catarina

Autora: Suely Soares
6h da manhã. Ele é acordado pelo relógio biológico, que só assim se tornou por causa dela. Era sempre ela, que mesmo sem ter motivos para acordar tão cedo, acordava-o no mesmo horário com o pequeno almoço já na mesa e um sorriso que iluminava o quarto todo.
 E agora, sem ela, sem emprego e sem saber o que fazer, ele pedia a Deus que o levasse logo ao encontro dela, para que pudesse conta-la todas as suas aflições, que ela sempre sabia como solucionar, fosse uma calça sem bainha ou uma decisão a tomar na empresa, ela sempre foi tão sensata e tinha sempre a palavra exacta, que o fazia ter a certeza que um enorme problema era afinal algo tão simples de se resolver.
Todos os dias ao acordar, ele chorava por ter acordado, pois acordar era o mesmo que lembrar que ela já não estava para dar-lhe um beijo e ir fazer as compras. Oh! compras! Nunca mais havia comprado nada, só ela sabia comprar... Já não entrava na internet, porque só conseguia pesquisar as mil e uma maneiras de suicídio...
 Nunca mais tinha ido ao cinema, só ela sabia escolher os filmes que os faziam rir, relaxar e por fim reflectir ''são estes os 3 R ́s que nos devem guiar na escolha de um filme'' dizia ela. Mas ele não aprendeu!
 Sem ela agora, era mais fácil não acordar e ficar simplesmente adormecido a sonhar com o dia em que Deus permitiria o seu reencontro. Porque não havia mais vida, nada mais fazia sentido. Só lembrava das vezes que ela dizia aos risos, "se eu morrer, meu marido morre a seguir, este aqui não vive sem mim" 
E não vivia. E não queria viver...
 Sentia que já não era aquele homem forte, pois não tinha coragem nem para apressar a própria morte. 
"Como Romeu e Julieta, somos eu e meu marido. O dia em que eu me for, o André dará um jeito de ir ter comigo" 
E pedia a Deus todos os dias para que aquele fosse o último dia que vivia longe de sua amada, mas o dia seguinte chegava e ele sempre acordava e logo então lembrava, que catarina ali já não estava, nunca mais estaria. Já não gritaria: ''Oh! Homem, não me deixes a toalha molhada por cima da cama!''
Como viver sem ela que era metade do seu ser?
 Um dia depois de mais de seis meses, André decidiu arrumar o quarto, estava uma bagunça, exactamente como catarina detestaria ver. E espantou-se quando viu, na caixinha das bijuterias dela, um papelinho que dizia: "Este cancro tem me vencido e insiste em afastar-me de ti, mas se eu morrer, meu marido, vive o dobro, vive por ti e por mim."
 Naquele momento parou, atirou-se na cama e chorou, chorou tanto que adormeceu. 

Quando acordou era um novo André, abriu as janelas, limpou a casa, pediu até uma pizza, não aquela que era a preferida de sua Caty, mas um sabor novo que nem mesmo ele havia alguma vez experimentado. Desfez-se das roupas velhas, decididamente compraria roupas novas, olhava com outros olhos para as flores do jardim do vizinho, que estava mesmo a sua frente, decidiu ir apresentar-se ao trabalho e deitou os remédios de depressão. Nunca mais esqueceria Catarina, mas acima de tudo nunca mais esqueceria de si mesmo!