19 abril, 2016

O ''grito'' de uma esposa que também se amava

Autora: Vanessa Neto


Todas as noites, Rita tinha o mesmo hábito. Era já como um ritual: arrumar num armário, delicadamente, as mágoas que o seu esposo lhe causara. Embrulhava-as com bastante subtileza; embora ficasse com as mãos doridas nunca as largava enquanto não as embrulhasse devidamente. Cada mágoa tinha a sua prateleira, e cada uma delas todas empilhadas da mesma maneira. As discussões, guardava-as todas numa caixa grande que punha numa enorme gaveta. Tudo o resto, estava à vista de quem abrisse. Assim que abria o armário perdia todas as forças ao ver tanta coisa inócua. A sensação que tinha quando as depositava, ao fechar o armário, era de total leveza e liberdade. Ao fechar a porta, dando um suspiro de alivio, sentou-se na beira da sua cama. Esticou os braços para os lados, fechou os olhos e pôs-se a cantar.
Levantou-se bruscamente ao lembrar-se que tinha um outro armário, ao qual , já não abria há muitos anos. Dirigiu-se a ele e muito vagarosamente abriu, com a curiosidade de saber se tudo o que guardava, ainda lá estava.
Amor, sonhos em comum, lealdade, respeito, eram as coisas que lá se encontravam, porém já sem vida. Só serviam para exposição. Não causavam o impacto que o outro armário lhe causava, a sensação de que cada peça  ainda se mantinha viva lá dentro.
Rita tinha depositado toda a felicidade naquele armário esquecido, quando o seu casamento passou de sonho a pesadelo. Apercebeu-se de que aquele armário estava quase vazio, e o armário onde guardava as mágoas estava já completamente cheio.
Dirigiu-se então, descalça, aos dois armários e retirou de lá peça por peça de cada mágoa e cada pedaço que sobrara dos restos do armário da felicidade.
Colocou tudo na balança. Todas as mágoas num lado e as peças da felicidade do seu casamento no outro. A balança partiu-se. A base onde foram colocadas as peças do sofrimento, caíra de tanto peso que tinha. Rita olhava para tudo aquilo indignada. Era como se estivesse a ver a si própria no lugar da balança. Ela estaria completamente abaixo se guardasse consigo todas aquelas coisas.

Tal como habitual, após o trabalho o seu esposo estaria a jantar num lugar qualquer com  o senhor “alguém" e chegaria no meio da madrugada.
Rita recolheu de seguida todas as coisas que havia recebido de seu esposo, e deixou-as por cima da cama, no lugar onde ela dormia. No lado do seu esposo, deixou uma carta:

''Vou-me embora. A nossa balança partiu-se. O  armário da  nossa  felicidade  já há algum tempo que não recebe nenhuma peça, mofou. O armário do meu sofrimento está abarrotado, daqui a pouco sai tudo de lá e começa a invadir-me.
Pesei tudo o que me deste ao longo destes anos todos. As mágoas pesaram mais! Não quero este peso comigo. Eu nasci para andar de alma leve, espírito tranquilo. E não para carregar o peso das tuas tralhas comigo. Beijos.

P.S : Amo-me.''