29 abril, 2016

Tudo mudou

Autora: Bereznick Rafael


Mais uma vez nossos olhares cruzaram-se. É incrível que depois de tanto tempo ela parece não mudar nada, continua a mesma menina-mulher que sorri com os olhos fechados e que empolga-se ao falar de Sidney Sheldon. Já deve ter lido “Se houver amanhã” mais de cinquenta vezes. Quando vi-a lembrei do nosso primeiro encontro, foi coisa do acaso, mas ela insistia em dizer que era obra do destino. Eram meados de julho, eu andava sem rumo e ela estava sentada no parque a ler “Um estranho no espelho” de Sidney Sheldon e em voz alta repetiu uma das falas de Jill Castle “Eles haviam mentido, o tempo não era um amigo que curava todas as feridas, era um inimigo que devastava e mutilava a juventude”, foi nesse instante que guiado pelo doce som de sua voz levei meus olhos em sua direcção, ela levantou a cabeça e nossos olhares cruzaram-se, ela tinha os olhos mais claros alguma vez vistos por mim, instantaneamente nossas almas se conectaram, sabíamos que tínhamos nascido um para o outro e que nossos corações se pertenciam.
      -Eles não mentiram, o tempo é mesmo um amigo que cura as feridas, ele não é um inimigo da juventude, nossa juventude é que está sempre com pressa a tentar correr contra o tempo. - Falei e ela olhava para mim como se estivesse a olhar para um louco ousado que interrompeu sua leitura. Assim que terminei de falar ela olhou para mim durante pouco mais de dez segundos e retomou a sua leitura tentando ignorar minha presença. Com ela eu sempre era conduzido por impulsos maiores do que eu por isso sentei-me ao seu lado até que tornou-se impossível para ela continuar a ignorar-me e começamos a conversar. Depois dessa conversa vieram todos os encontros que fortificaram ainda mais aquilo que nasceu no instante em que cruzamos os olhares.
         Antes dela eu não acreditava no amor, muito menos em amor a primeira vista. Casais a andar de mãos dadas trocando beijos e promessas de uma vida inteira juntos era algo que eu achava ridículo, patético, Mas depois dela... Depois dela tudo mudou, Romeu e Julieta já fazem sentido para mim. Juntos pintamos o mundo com as cores que nos apeteciam.

       Muito tempo passou, muita coisa mudou. Na verdade tudo mudou, enquanto eu estou aqui sentado a imaginar o rumo que nossas vidas tomaram, ela está sentada do outro lado a ler mais um clássico daquele que é seu escritor favorito "Em busca de um novo amanhã" e sempre que termina um capítulo ela pousa um pouco o livro e olha para mim abrindo aquele sorriso que faz-me ganhar o dia só para dar-me o prazer de sentir a magia que seu sorriso meigo transmite. Cinco anos passaram-se e sempre que nossos olhares cruzam-se eu sinto o mesmo que senti naquele dia no parque, as borboletas invadem meu estômago e meus batimentos cardíacos aceleram. Depois dela eu apaixono-me diariamente pela mesma mulher, a menina que conheci no parque num dia de cacimbo. Sim, tudo mudou depois dela!