24 maio, 2016

A melodia de um adeus

Autora: Vanessa Neto

Hoje dancei incontrolavelmente ao ritmo de uma melodia que, na minha vida, nunca se tinha feito presente. Não foram os dissabores que encheram de lágrimas os meus olhos, foi antes o desafio da despedida, a minha rotina que no momento estava a entrar numa caixa chamada passado, onde estaria fechada por tempo indeterminado. 
O futuro a chamar por mim, desafiando-me a enterrar o passado. Sorrisos, vivências, paixões, hábitos; era chegada a hora de encher aquela caixa  e desapegar-me dela completamente.
Esta despedida tinha uma melodia, mãe! Eu não sabia se dançava ao ritmo dela ou se tampava os meus ouvidos para não ter de vivê-la. Foi um verdadeiro sofrimento, uma dor que rasgava o meu peito lentamente e nem me deixava respirar normalmente. Sim, aquele suspiro que dei quando te abracei, foi mesmo por me ter faltado ar! Eu apenas não te queria preocupar, era muita dor, já bastava a despedida e o ruído que no momento eu ouvia.
Mas o bom de todo esse drama, mãe, foi eu ter feito aquilo que me ensinaste desde pequena : "Conforma-te, que a dor será menor. Aceita o que não podes mudar e faz disso o teu pilar para crescer ainda mais, escuta a melodia e deixa-te dançar".
Eu realmente escutei mãe, no início estava a ser muito estranho, sentia-me um peixe fora d'água; mas depois tudo se começou a encaixar, quando coloquei por cima da mesa todas as razões que me fazem cá estar.
Ai! Se essa mesa falasse, mãe! A mesma mesa onde escrevo-te esta carta. Pude então perceber que é necessário deixar para trás certas coisas em nossas vidas, para que possamos dar um passo em frente, para que alguma coisa evolua e possuamos evoluir juntamente. Esse adeus não precisa de necessariamente ser definitivo, eu diria mais um "até já", mas prefiro chamar de "adeus" pois não voltarei igual. Não serei a mesma quando me vires a desembarcar mãe, deste realmente um adeus à tua filha , mimada, que estava habituada a ter tudo, feito pelos pais e que tinha tudo ao seu alcance.  Eu voltarei mais madura mãe, tornei-me mulher, uma verdadeira mulher eu diria. Hoje até aquele dinheirinho que eu sempre te pedia todos os santos dias para comer um gelado,  eu junto e guardo-os nas minhas economias. 
A solidão também ensinou-me muita coisa mãe, mas não te assustes, eu não sou uma solitária. Tenho amigos, tive até sorte digamos assim, os colegas da universidade têm sido um grande apoio para mim aqui. Mas aprendi a estar sozinha e a gostar da minha companhia, sabes? Aprendi a ouvir a minha própria melodia, escutar o meu coração e deixar-me aprender com tudo aquilo que esta experiência me tem para ensinar.

Sairei daqui formada, mais mulher , mais madura e mais humana. Aquela menina que fugia do quarto quando a luz falhava, já não é a mesma. Hoje ela encara a sua própria solidão como um verdadeiro espelho, um refúgio talvez, deste mundo tão barulhento que nunca se cala. Mas para aprender a gostar dela, teria de ser submetida a tal experiência. Deixar-me dançar em alguma melodia, e assim foi, deixei-me dançar na melodia de um adeus que hoje faz de mim essa mulher.