13 maio, 2016

A minha solidão agridoce

Autora: Vanessa Neto

Sabor amargo, doce sensação. Fica no ar, esse meio termo de azedume e doçura de uma tremenda solidão que desfia-se ironicamente  e faz com que me deite numa verdade tão azeda, porém tão pura: a minha realidade. Em mim vejo uma expansão de sonhos e sentimentos. Tudo está bem entre o ruído das gargalhadas em conversas com amigos. Nesse momento, ela é apenas uma espectadora, na qual eu faço questão de mostrá-la a minha "felicidade" perante a vida, para que quando ela em mim pegar, não seja para sempre, que não me agarre. Mas  seja apenas um toque, um toque assim de leve, como a brisa do mar  toca no meu rosto, assim suavemente. Para que eu a sinta e ela vá embora imediatamente.
Mas há um desafio constante entre eu e essa tal de solidão. Eu rio-me sempre, quando os nossos olhares se cruzam entre as grandes conversas entre rodas de amigos e também outras vivências. Um sorriso falso, disfarçado, que encobre todo o meu medo de estar de frente com a minha realidade.
É uma solidão doce, que eu detesto. Todas as noites, quando chego a casa, dispo-me da força que em mim carrego, a força que me faz ignorar o  amor perdido, que me faz esquecer que não sou assim tão feliz, e que quando me rio com os meus amigos, é apenas um momento em que me inibo da minha tristeza.
Sinto-me então sozinha, e ligo a minha rádio. Esta é demasiado barulhenta, invade o meu silêncio, a minha solidão que apesar de amarga também sabe ser doce. 
Desligo-a então e novamente sinto a minha doce solidão. Um silêncio tão bom, apenas eu, ela e os meus pensamentos. Uma doce sensação toma conta de mim e deixo-me finalmente deliciar com tudo aquilo que penso. Mas ela não espera muito tempo, agarra num espelho e põe-no a minha frente. Oh! Que  solidão essa que tanto detesto. Nesse espelho eu me revejo! Revelam-se todas as minhas verdades, caiem ao chão, todas as minhas vestes. Aí! Que solidão insólita! 
Ela deixa-me nua e crua na hora da verdade, desafia-me completamente deixando no ar, a amargura do sabor que é a minha realidade. Como se estivesse a tirar o  lápis que torna marcante e forte o meu olhar, e a base que esconde as olheiras, por passar toda a noite a chorar. 
Fecho os olhos e tapo o meu rosto com o meu livro. Abro-o minuciosamente,roçando-o no meu rosto, enquanto tento esquivar-me daquele espelho. 
Abro os olhos paulatinamente e mergulho profundamente no que leio.
Em silêncio, consigo escapar dela finalmente.
Dia após dia, tudo se repete.

E fico eu assim, vivendo uma vida com um toque agridoce.