14 maio, 2016

Afinal era 25 de Janeiro


Hoje celebramos as histórias e estórias, as grandes lutas, as memoráveis vitórias, os contos a volta da fogueira, as brincadeiras nas noites em que faltou energia, as marcas (in)visíveis que nos deixou a guerra, as sentadas familiares, as conversas mirabolantes, a vizinhança que se torna de casa, a ousadia de quinze entre milhões, aos desafios fora e dentro de nós.
Hoje celebramos a nossa gente, peculiar na sua natureza, feliz na sua própria tristeza.
Ao silêncio e aos que foram silenciados.
Aos que falam e pouco são escutados.
Aos que têm de sobra e aos que deles nada sobra.
Celebramos aos que esperam por salvação e aos que se proclamam heróis.
Celebramos a gasosa... que bebem os que têm menos sede... que condenamos mas alimentamos... a hipocrisia nas nossas vozes que anunciam mudança sem provar o sabor do poder. as criticas sem vivência. aos julgamentos sem conhecimento.
Ao doce sabor de ser quem somos.
Nesta hora celebramos a criatividade, perseverança e diversa unidade. Celebramo-nos, a nós e nós mesmo. Nós que partimos, nós que caminhamos e nós que havemos de voltar...a viver.
Faltou energia. Ouviu-se a voz da vizinha. Vamos brincar. Bicá bidón. Eu não fiquei, ficaste tu. Banana verde, banana amadureceu.
Escondemo-nos todos. Procuraste por nós. Encontraste os outros. Quando viraste para o lado, eu corri do meu esconderijo. Os outros torciam por mim, para que corresse o mais rápido possível. Consegui! Biquei o bidón.
— Bicáááá!
A cidade ouviu o grito, do meu tão confuso, porém esperado, momento. Tu também sorriste, embora aborrecido. Abraçamo-nos todos e cantamos à alegria de não sermos ainda mais velhos.
—Façam ainda uma roda. — Pediste enquanto puxavas as nossas mãos e te desfazias do aborrecimento.
Obedecemos, sem por isso não acharmos inferiores. Quando faltava energia éramos todos iguais.

"Salalé três três,
Salalé três três,
É mana Zinha, chuta,
É chuta a bola, chuta,
É na baliza, Chuta,
Do São Domingo, Chuta,
Fazer barraca, Chuta,
Kalinguindó, Kalinguidó, Kalinguidó,
Chuta!!!!!!!!!!!!
É na baliza, é na baliza Golo!''

Do outro lado do quintal, estavam os mais velhos, com velas acesas em orações ou em conversas de murmúrios. A vizinha São apareceu com um tabuleiro cheio de galetes e nos deu para comermos. Afinal era dia 25 de Janeiro de 2016, dia do sítio onde moramos.

Os mais velhos só estavam a falar baixo e a ouvir rádio de pilhas. Nós comemos os galetes e fizemos planos para quando crescermos. Depois a luz veio.