31 maio, 2016

As palavras que nunca te direi

Ainda me lembro do dia que os nossos olhares cruzaram-se pela primeira vez. Estavas todo bem vestido, a sair do trabalho e eu de pijama, toda mal amanhada, a abrir a caixa de correio. Tinha acabado de acordar. Era uma mania minha, ler as correspondências logo ao acordar. Mal sabia eu, que estava a receber a maior correspondência da minha vida, a tua chegada. Só me apetecia subir as escadas a correr e pôr alguma maquilhagem.
Parecia que as coisas estavam a acontecer contra o nosso favor, o alarme de incêndio do prédio tocou e de repente vimos uma multidão a correr, quase que para cima de nós. Apesar daquela aflição do momento, o meu coração só se conseguia focar no amor, no que eu estava a sentir em relação a ti, no primeiro impacto, na doçura do teu "olá". As palavras foram interrompidas, a troca de olhares imediatamente cortadas. Não estava a ver a hora de ver desaparecer aquela gente toda, e poder estar novamente a sós contigo.
Finalmente anunciaram que era apenas um falso alarme e deixaram-nos entrar novamente no prédio. Quando entramos os quatro moradores no elevador, sem me dirigires uma única palavra, senti que tinha tido apenas um sonho e agora voltaria á minha rotina normal, com as minhas correspondências na mão ao qual eu agarrava-as com toda a minha delicadeza, enquanto roçava-as com as minhas unhas semi-compridas e muito bem cuidadas, porém não pintadas. Dentre elas algumas cartas da minha melhor amiga Lya, que estava a estudar fora , alguns familiares e contas, muitas contas e publicidades. Tinha passado a uma vida social tão limitada que não me deixava estar sempre com as pessoas que gostava.
Eram as "visitas" que eu recebia diariamente, as minhas fieis visitas. A certeza de que alguém se tinha lembrado de mim, as correspondências preenchiam aquele vazio. 
Baixei a cabeça tentando esconder o meu rosto, acabado de acordar e assim que o elevador se abriu, sai apressadamente como se me estivessem a empurrar.
As cartas caíram todas da minha mão quando vi-te sair de seguida. Olhaste para os meus olhos fixamente e pegando no meu rosto delicadamente deste-me um beijo. Não precisavas pedir desculpa, eu tinha gostado. Embora não ter dito nada naquele momento.
Elogiaste-me de seguida e eu derreti-me mais ainda. Eu estava no meu estado mais simples de sempre e tu me tinhas acabado de chamar de linda! Não fazes ideia do quão passei a gastar menos em maquilhagem. Todas as vezes que me olhava ao espelho, e me tentava maquilhar, sentia uma sensação de satisfação e voltava a arrumá-las.
Mantinha-me fria e dura contigo, mas isso também me magoava. Não me conseguia apegar e nem deixar ninguém apegar-se por mim. Os nossos primeiros encontros foram difíceis, apesar de bons. Tu tinhas sempre a última palavra: "liga-me quando chegares". E eu nunca ligava. Não sei o que se estava a passar, talvez tinha desaprendido a amar, a me apegar. Talvez por viver tanto tempo a sós, sem afetos e sem muitas atenções, estava habituada a viver assim.
Ficamos um mês e meio nesse impasse e tu nunca desistias de mim. O amor é paciente, sempre ouvi alguém dizer. E vi isso em ti.
Ensinaste-me a reaprender a caminhar no amor, ensinaste-me a voltar a amar.
Mas naquele encontro, aquele inesquecível encontro onde nos conciliamos, a vida ensinou-me que o amor vem, mas é como um balão: se não o agarrarmos e voarmos junto com ele, ele vai embora. Todas as palavras sentidas, são para serem ditas na hora. Agora que te foste, não tenho como te falar.

Tiraram-te de mim. Estavas em meus braços, na ultima vez que te toquei. Não me deixaram sequer falar as palavras, que por ironia do destino, nunca te disse e nunca te direi.
Autora: Vanessa Neto