06 maio, 2016

As vozes que vivem na noite

Autor: Geraldo Gomes
Essas vozes sussurradas que ferem com palavras a minha cabeça falam sobre a guerra que sorrateiramente me tomba, falam sobre a verdade que carrego nos punhos cerrados, trêmulos e inseguros, ensanguentados pelas correntes pesadas de viver. Sobre a covardia que é não proteger a própria sombra do sol que queima o peito em carne viva. E falam sobre a paz que o amor cobra para que nasçam flores na carne viva do peito.
 Ah! A guerra, a verdade, a covardia e o amor!— quem pode sonhar com uma alma tão torturada? Essas vozes, essas que de noite sussurram profecias de um passado feliz e de um futuro melancólico, essas vozes são o ápice da minha insensatez. São os fantasmas que circundam um corpo de âmago cansado de resistir às pequenas e grandes tormentas da vida.
Continuo ouvindo-as, as vozes barulhentas, ecoando nos cantos escuros da minha mente; a praga da insônia deixa acesas as velas dos meus olhos e no lampejo de uma madrugada sem lua, encontro-me só. Só, pois que a noite serena não me traz conforto algum senão as tristezas que os dias arrastam. Meu corpo arrasta-se em pés que fingem andar mas que seu sonho de voo é corrompido, e por isso arrastam-se também. A insensatez minha tem paredes concretas de amor e ódio que o Diabo e Deus desconhecem. Minha insensatez é minha e eu estou só.
Não há paz no silêncio exterior: há tanta agonia pelo o que a noite faz calar. Há tanto a ser dito mas a doida Vida fecha a boca com seus dedos finos e frios, fúnebres. A vida que morre aos poucos aos pés daquele desacreditado homem, daquela mulher sem fé, da criança que perde a inocência. Não há amor num coração que pulsa com medo dos espíritos da vida morrediça, do vulto da morte e da noite e do próprio espírito humano.
O que resta é tão somente a guerra e a covardia que sobreviver à alvorada, à grande pintura resplandecente do nascimento do dia, à plenitude que é respirar o ar que rompera o parto da Noite e sopra rebelde e sereno como se houvesse enfim paz e por um segundo de contentamento se pudesse acreditar que viver é um gozo constante parece delírio de um vislumbre de felicidade. Quando o dia surge, e da janela embaçada das íris se vê a revoada de uma multidão de corvos a tombar com fúria e ferocidade uns nos outros -- é quando se sabe que as vozes da loucura fantasmagórica da noite tinham a mais dolorosa razão: viver dá medo e seu sentido é um grande oculto; o Homem é covarde para enfrentar a Vida e esse é o motivo da guerra mais duradoura do ser vivente: estar vivo.