30 maio, 2016

Castelo de cartas


Ela vivia num castelo de cartas, construído a base de ilusões e mentiras. Sabia que não daria em nada continuar nele, mas já se acostumou a viver assim, a viver com ele, mesmo sabendo que era a única que amava e lutava para que o seu castelo de cartas não fosse arrastado por uma tempestade.
Mantinha viva a esperança de que tudo voltasse a ser como era antes, e vivia agarrada as lembranças dos momentos áureos que viveram, dos dias que poderia gritar ao mundo o seu amor, e sair de mãos dadas, sem receio de sofrer qualquer repreensão, por insistir em lutar por uma causa que todos julgavam impossível. 
Em compensação, ele, não movia um dedo sequer para mudar a situação. Para ele, tanto fazia, ficar ou ir, era-lhe indiferente. Então limitava-se a fazer o que fazia todos os dias: sair para trabalhar, para beber e se divertir com amigos. Quanto mais tempo passava, fora de casa, longe dela, melhor para ele. Porque ele, só estava a espera que ela desse a cartada final, afinal de contas, sabia, muito bem, do nível de sua covardia para tomar uma decisão tão importante. Ela esperava o dia em que ele mudaria e voltasse a amá-la, como da primeira vez, e parasse de tratá-la como uma estranha qualquer, que acabou de conhecer na fila de um banco ou esbarrado na rua.

Ela tinha a esperança de, finalmente, substituir o seu castelo de cartas por um de pedras preciosas, construído à base de amor e respeito. Mas, no fundo, sabia que tudo não passava de um desejo, porque há muito que se encontrava desprovida desse sentimento. Por isso, se contentava com o que tinha. Para ela, o importante, era que ele voltasse para casa todas as noites e orava para que o vento não destruísse o seu frágil castelo.
Autora: Aurea Assíduo