27 maio, 2016

Das lembranças passageiras




Andava entre os transeuntes com uma pressa que a ela mesma parecia aflitiva. Era sempre assim seu caminhar. As pernas acostumadas com o vulto uma da outra seguiam um balanço que não se atreviam a brecar. Tinha, porém, certo equilíbrio que não permitia nenhuma linha ser interrompida por curvas: não cambaleava, mostrando precisão em cada passo ávido e no entanto o barulho abafado pelo zunir da multidão. O barulho de tanta gente a fazia esquecer o silêncio que dela não era quebrado senão pelo taco de madeira em seu sapato? E por que usava sapatos com tacos de madeira? Embora não falasse, ela sorria. Era quase um escárnio em seu rosto, um sorriso de desprazer. Ela assim o entregava a quem passasse. Sentia com isso uma angústia, um desamor tão profundo por si mesma mas não largava o sorriso. Queria pensar que convencia alguém de sua felicidade e que era assim que era viver. Mas além de feio, seu sorriso era fatalidade de um instante: por causa de seus passos ultrapassados, tudo o que os outros viam era o passado. O vislumbre do que se recorda com doses desequilibradas de alegria e melancolia. Era um susto e também um evento — ao passar por ela, só se viveria o futuro. Uma senhora passou por ela, e no momento em que a avistou, ela já havia passado. Se a senhora ainda recorda da mulher? Talvez ainda enxergue em pensamentos o borrão da silhueta despenteada. Mas lembra-se bem do ruído sonoro dos tacos de seus sapatos, portanto sabe que ela existiu. A mulher atravessa a rua na esquina. Seus cabelos são uma fumaça livre; enfeitiçados. Na outra calçada uma criança segura em sua mão. Em revolta pelo ato inocente, não largou sua mão: a agarrou com ainda mais vontade como se pressentisse a dor da separação de coisa completa. Uma coisa só é completa quando se entrega sem exigir, e a mulher não se rendeu à mão que tocava a sua. Ela se apoderou, temerosa, conectando-se à criança sem que esta pudesse alguma vez relutar: ela tinha uma aura pueril que deixava a mulher ainda mais inquieta — porém nunca anulando seus passos, seu barulho, seu silêncio nervoso. A mão da mulher feria a mão da criança enquanto que o corpo maior era quem se incomodava. A criança não chorava, os pedestres enxergavam com horror seu sorriso e a mulher, angustiada, em dores. Do outro lado da rua, a mulher sentia dor. O ar esquentava: havia o calor. Agora seu rosto suava, mas ela sabia andar e nenhuma vez titubeou. A esquina veio e, largando a mão da criança, percebeu de sobressalto e com certo pavor que sua mão sangrava. A dor que sentia era a de, não notando o desprendimento do que com amor nos segura, com gentileza nos acompanha, só o que lhe restava era a sofreguidão do afastamento. Estando alheia, assim, ao amor e à pureza que sustentava na mão, prendeu os seus passos, sentindo o que se pode chamar de desespero: na multidão que lhe ultrapassara e a quem tanto falsa e horrivelmente sorriu, ela sentiu-se perdida e no entanto atada a todos. Mas sabia que estava sozinha, paralisada pelo choque. Sangrando. A criança pensou nela por um tempo. Havia achado-a estranha e divertida, mas tinha as mãos limpas demais para tocar no que por essência é uma lembrança do futuro, e isso ela jamais compreenderia. Ela não sabia, inclusive, que a mulher sangrava. Mas a mulher, em silêncio, atravessando corpos em contramão, fingindo com horror um contentamento e ultrapassando os passos alheios — a mulher sangra.
Autor: Geraldo Gomes