30 maio, 2016

Meu maior medo

Paula e Luis eram amigos a muito tempo, mais tempo do que ela gostava de admitir para não denunciar todas as 45 primaveras que já vivera, e das quais em 38 delas ele estivera presente em sua vida, hora mais próximo, hora mais distante por causa dos compromissos e chatices da vida adulta. Ele era a alma irmã de Paula, um pedaço dela que por descuido da vida havia nascido em outro corpo.
Quando conversavam apenas se perdiam em diálogos infinitos e despretensiosos, não tentavam encontrar as soluções para as crises globais, nem pretendiam achar as respostas para as perguntas existencialistas que o mundo empurra goela abaixo, eles apenas abriam seus corações na certeza de ser compreendidos, mesmo quando as palavras faltavam e eram insuficientes para expressar o sentimento. Os olhares trocados preenchiam as lacunas, às vezes eram olhos chuvosos que se derramavam em dor e tristeza, às vezes eram sorrisos na pupila que extrapolavam a pálpebra. Tinham seu idioma próprio e apenas os dois falavam-no com fluência.
Num dos dias de melancolia sem razão, depois de minutos calada, Paula lhe confidenciou:

- Sabe Luis, meu maior medo na vida é a rotina, é acabar me acostumando. Nessa vida tudo é contornável. O homem pode se acostumar com as piores condições de vida – fome, miséria, violência, doenças, somos programados para sobreviver  e para isso às vezes fechamos os olhos e tapamos os ouvidos. Morro de medo de um dia acordar e perceber que deixei de ver com estranheza, e até horror, esses pequenos absurdos cotidianos que de tanto escutarmos na TV, cada dia parecem mais normais, menos sustos causam. É por isso que de vez em quando eu me desligo de tudo por um tempo e me desintoxico dessa sobrecarga de informações negativas. Não vou deixar que ninguém me convença que o mundo está perdido, para mim não, eu ainda vejo muito pelo que lutar e enquanto não posso fazer muita coisa ao menos tento manter acesa essa fome de mudança que mora aqui dentro e mudo a mim mesma um pouquinho a cada dia. Deus me livre de morrer uma pessoa pior do que nasci.
Autora: Laine Ferreira