23 maio, 2016

Na sombra do silêncio

Autora: Aurea Assíduo



Já é manhã; O sol  raiou, os pássaros cantaram e já se fez dia. Aqui dentro, porém, o denso véu negro permanece e o escuro é cada vez mais profundo, como se não existisse dia e nunca se tivesse realizado  a divisão entre a luz e as trevas. É como se a luz se recusasse a habitar dentro de mim e o mundo se tivesse esquecido literalmente de mim. Por isso, criei o meu refúgio nas trevas e aprendi a fazer parte do escuro. A minha mente tornou-se o meu lugar favorito, as minhas lágrimas fizeram a gentileza de criar um oceano ao meu redor, ganhei alma de artista e aprendi a viver confortável na solidão. 
Hoje gosto de ficar assim: quieta, isolada, sem vontade de falar ou interagir com alguém. Gosto de apreciar o silêncio e encarar o vazio. Embora algumas pessoas digam que tenho talento para sofrer, eu tenho a certeza de que a minha resguarda não é sofrimento. Ela é apenas uma necessidade constante de tentar entender-me e de perceber o por quê de ver o que mais ninguém vê. 
Sinto-me só quando estou rodeada pela multidão, e completa quando estou no meio do nada. Sinto essa necessidade de procurar lógicas e verdades no silêncio e procurar complexidade no vazio, porque ele sempre me pareceu ser mais completo que o universo repleto de pessoas que simplesmente existem e nunca se questionam o motivo da sua existência. Já eu, questiono-me e procuro explicações que só encontrarei enquanto viver na sombra do silêncio.