23 maio, 2016

Que os mornos se virem para aquecer seus corações

Autora: Laine Ferreira

Fazia tanto tempo que Isa tinha sempre uma mão segurando a sua que a memória precisava de um grande esforço para lembrar como era seguir sozinha, e suas lembranças não eram animadoras, vinham à mente cenas de ansiedade, solidão e medo. Ela havia pulado de um relacionamento para outro a vida toda, com pausas breves, sem nunca deixar o cargo de namorado esfriar. As razões e as perguntas se confundiam, o que era causa e consequência em sua vida nunca estava muito claro. Ela aceitava pessoas insuficientes por carência ou ficava carente por ter pessoas insuficientes?
Um certo dia ela acordou e apenas decidiu fazer carreira solo nas curvas da vida, em parte por curiosidade de ver se teria forças para vencer seu velho fantasma de estimação, em parte por necessidade de buscar a coisa não identificada que faltava na sua vida. E assim ela foi,  tomada de um pavor eufórico, oscilante entre a expectativa e o arrependimento. Volta e meia dava um olhar saudoso para o conforto do conhecido, suspirava, erguia a cabeça e dava mais uns passos incertos. A cada pegada que ficava para trás crescia a certeza que aquele lugar onde estava como estátua tempos atrás nunca havia sido dela, nunca teria sido dela, o único motivo para lamentos era ter demorado tanto para escutar aquela vozinha que começou sussurrando e por fim gritava: Você não está em casa ainda.
Talvez os anos a tivessem tornado mais exigente, talvez a consciência do quanto era especial e tinha valor finalmente tivessem batido a sua porta, seja qual fosse a razão ela decidiu parar de barganhar amor e aceitar uns beijos moles como troco. Ela tinha certeza que havia um certo alguém no mundo que a aguardava, quase tão ansioso quanto ela, para entregar todo o amor incompreendido e renegado por tantos. Ela sabia que havia de encontrar alguém seu, que tivesse esse mesmo jeito de amar sem reservas, um amor incendiário, ás vezes um tanto agressivo e faminto, mas sempre sincero. Pensou consigo mesma: Que os mornos se virem para aquecer seus corações, agora só serei chama para a minha fogueira gêmea!