13 maio, 2016

Serenidade tediosa

Autor: Geraldo Gomes

Tenho tido dias fastidiosos. Conversas que minguam em desdém. Risos sem açúcar. Uma intensa e envolvente serenidade tediosa. Meio que envolto em cera de abelha sem nunca provar do mel, e aquela coisa a me lambuzar e me deixar inválido. É assim que sinto o poder absoluto desse sentimento de não-sentir que me aplaca. É assim: começa pelo miar do gato na cozinha, um ecoar vibrante que eu sinto nos pelos dos braços e então já estou tomado. Às vezes não sei se sou eu quem me entrego tão rápido a um sentimento ou sou entregado por essa força que não conheço a ele. Não sei, sei que sinto. E não sinto pouco: sinto tanto a ponto de não saber viver. E tento me ser dessa forma toda disforme. Até mesmo o aborrecimento do que é às vezes não sentir algo me é intenso porque me vem junto com um desespero que é por si só um sentimento. 
O que me dá paz é saber que por vezes vivencio um estado de graça que me eleva. A testa brilha dourada numa contemplação de humildade e pureza, um sentir tão vasto e singelo — mas não simples. É ver desabrochar uma flor e ali descobrir o mundo todo novo, fluido e com a seiva escorrendo fresca entre as pétalas. As vistas remetem às copas das árvores sendo invadidas pela luz do sol e o ar se engrandece num aroma de terra fértil, um útero com a vida prestes a nascer. E a vida então nasce no vento. Assim, leve... com uma preguiça sossegada que vai se empurrando com carinho até formar um redemoinho de graça. E eis que ali naquele silêncio eu sou o tudo e também sou o nada. Respiro o ar que sou e estou fértil. Vou parir.
Ouço a estática do meu corpo. Meu peito bombeando energia e vida, a vida sendo transposta em mim mesmo. Sou doado e doo — pertenço a quem faz meu coração pulsar. Sinto as murmurações do vento, agora, e ele reclama como eu dessa serenidade tediosa. "Serenidade tediosa": assim chamo o que sinto e que não me deixa sentir. Um não-sentir grave e incômodo que não me deixa respirar e no entanto ainda vivo. Não quero. Não gosto. Prefiro a morte a não poder viver a vida plena. Não sinto pouco: o meu sentir é em abundância e eu quero parir.