02 junho, 2016

Luz.Câmera.Acção.


“Endireita a postura, olha para frente com a cabeça erguida, agradece, acena e sorri, nesse mundo a imagem é tudo o que importa” Tinha oito anos quando ouvi minha mãe pronunciar essas palavras pela primeira vez, acabava de ganhar o concurso miss-mirim, minha mãe estava visivelmente radiante e sentia-se realizada, aquele era o sonho que ela não pôde realizar e aguardou por mim para fazê-lo por ela, quanto a mim, não sabia o que sentia, mas alegria e felicidade definitivamente não eram. Desde esse dia minha vida transformou-se num filme onde minha mãe era a realizadora e produtora, monitorando cada passo e cada vontade minha.

Luz Câmera Acção, sorrir já parece automático, meus sonhos e minhas vontades já não se fazem sentir (as vezes nem lembro mais o que isso é). Vivo em um mundo de estereótipos onde existe apenas uma forma de fazer as coisas, um grãozinho de areia fora do vaso significa o final de uma carreira e consequentemente de uma vida social, pois, essa é a vida que venho levando durante os últimos doze anos da minha vida. Sou uma marioneta nas mãos de um mundo abusador, violador de almas e sonhos, um mundo que está longe de conhecer a verdadeira pessoa que vive por detrás dos quilogramas de maquiagem que cobrem o meu rosto.

De noite, ah sim! De noite é o único momento em que não escuto minha realizadora a gritar, Luz Câmera Acção, então é nessa hora em que dispo-me de todas ideologias que me são implantadas durante o dia e por breves momentos posso desaprisionar meu verdadeiro eu, uma alma triste e desolada que provavelmente não teria mais de cinco amigos, sorrir nessa hora é quase impossível, a alegria fingida durante o dia já não faz-se presente, sou tão desastrada que mal consigo atender o telemóvel sem tropeçar em alguma coisa. Olho para o espelho e tento ao máximo procurar aquela pessoa que é aplaudida durante o dia, aquela que é colocada em um pedestal e exaltada como uma deusa, mas tudo o que consigo ver é uma alma solitária, um coração triste e uma pessoa que não sabe sonhar. Vejo uma menina assustada, uma adolescente com inseguranças e medos, uma mulher que não sabe que destino seguir.

E novamente o sol raia e a brisa fresca entra pela janela do meu quarto, para muitos isso é uma luz de esperança, é a certeza de um recomeço, mas para mim é o momento em que apercebo-me de que chegou a hora de vestir a minha pele de atriz profissional.


Luz Câmera Ação, é o meu mundo, é o que sou, é o que fizeram de mim, pelo menos até a próxima noite chegar.
Autora: Bereznick Rafael