22 junho, 2016

O fazedor da própria história



Ele foi concebido entre os gritos e gemidos de um casal que não fazia amor, mas vingava-se da dor de terem sido traídos... Juntos pelo motivo errado, quem diria que este casal de namorados, seria abençoado com a presença de um novo ser.
Mariana estava concebida, chorava dia e noite mas já estava decidida, nada a separaria do anjo que carregava no ventre.
Para Carlos, foi um golpe no peito e na alma, aquela relação que só era boa na cama, um filho agora, não fazia parte do programa. Pediu para que ela abortasse, mas nada adiantou. Disse que não queria o filho, praguejou, ameaçou, mas o amor que Mariana já nutria pelo menino que crescia no seu ventre só aumentou. Por isso Carlos decidiu ir embora, abandonando aquela que nesta hora, virou uma grávida doente. Grávida sem terminar a escola, mãe solteira, mal falada no bairro, Mariana não aguentou a pressão, deu uma crise e não mais saiu do hospital.
Chegando o dia principal, tendo que escolher, preferiu dar a vida ao seu filho e a própria vida renunciar... E veio ao mundo o azarado, culpado sem ter pecado, acusado sem ter cometido, envergonhado sem ter vivenciado, os acontecimentos que deram origem a sua vida.
Azarado, assim ele era chamado, como se fosse o nome mais normal do mundo. Azarado por ter sido concebido, azarado por ter nascido e mais ainda por ter sobrevivido a situação que matou sua mãe. Mas mesmo assim muito sorria, era uma criança inocente que não via maldade, precoce demais para a própria idade.
Foi registado pelos seus avós, como Carlos Vigário da Silva André, é engraçado que a este bebé, foi dado o nome daquele que um dia o abandonou.
Azarado cresceu, estudou, mas mantinha-se isolado, não fazia amigos, era complexado, achava-se inferior aos coleguinhas pois sentia que ninguém o amava. Só que nem isso ofuscava, a sua mente brilhante e seu sonho de mudar o mundo. Lutava por tudo que queria, mesmo ouvindo sempre em sua mente, a voz da sua avó que dizia, que de nada adiantaria, pois por toda vida pagaria, pela morte de sua mãe.
E quando em seu percurso algum mal o abalava, azarado então lembrava de todo inicio, daquela infância conturbada, de sua mãe que depositou nele a esperança de que de alguma forma fosse feita a diferença. E era nestes momentos que sentia, que nada o faria parar, jamais deixaria de lutar para que outras crianças não passassem por tudo aquilo que a vida o fez passar.
 Por isso continuou, de cabeça erguida estudou, pediu bolsa, esperou, mas não desistiu do sonho de ser mais, muito mais do que uma criança sem futuro.
Licenciado em Medicina, aquela criança pequenina, é hoje o dono do maior hospital de África, onde todo tipo de operações para mães e bebês é feita de graça.
Azarado espalha sorte para mais de cem famílias todos os santos dias.
Dr. Carlos Vigário da Silva André, é dos médicos africanos mais respeitado a nível mundial; e em entrevista lhe foi questionado:
— É verdade que na infância chamavam-no azarado? — Do que se riu e retorquiu:
— Sim, um dia eu fui o azarado mas hoje em dia sem que eu percebesse o meu nome foi mudado, meus familiares chamam-me abençoado e quando eu passo la no bairro, os vizinhos apenas comentam:
"Olhem, olhem, eis ai, o fazedor da própria história!"

Autora: Suely Soares