24 junho, 2016

O homem que se escondeu


Recolher-se entre a floresta de trigo. Não faça barulho ou incomodará os grilos. Olhe, o céu está se desfazendo em gotículas: apanhe-as com a língua e não se assuste se ela começar a sangrar. É assim mesmo. Vai sangrar, te aviso logo, meu querido e inestimável amigo. Hoje foi dia de muita alegria: comprei pão e joguei para as galinhas que ciscaram sem me agradecer. Olhei o relógio e estava eternamente atrasado. Adiantei-me, então, e agora sou homem do futuro. Como é que está, aliás, as suas crias? Desde que partiu só soube que a sua vida não tem andado exatamente fértil. 
Esconder-se no trigal te impede de viver. No escuro que te encontras existe que tipo de animal? Quero honestamente saber que tipo de criatura te faz companhia nas sombras quais você escolheu viver. Na primavera de onde é que contemplas o pôr-do-sol? As ruas agora estão enfeitadas com olhares baixos, ornadas de um barulho indecifrável e muito bem iluminadas por vagalumes que saem dos becos. Só nos becos é que existem as vidas. No meio da rua a morte é muito frequente, e tem o hábito de colocar o braço ao redor do pescoço das pessoas. Camarada. 
Li num jornal recentemente a notícia de que todas as coisas um dia já foram uma coisa só: imagine então que eu posso ser você agora mesmo, e agora mesmo um bode dos alpes pode ser também eu, ou você, ou ambos. Tenho medo da imprevisibilidade das coisas. O que é agora pode não ser o mesmo num agora seguinte, e portanto ser outra coisa... e assim originar muitas outras coisas que um dia se perguntarão o que já foram. É viver aos pedaços desejando pela plenitude, meu amigo. Onde você está deve ser mesmo tranquilo, mas o vento chispando no trigo não te aborrece? Ou agora é melodia? Pergunto isso porque sei que tem uma inclinação a se acostumar com o sofrimento a ponto de transcendê-lo em beleza. O som do trigo para você agora é, então, uma sinfonia. Mas ouça em silêncio: os grilos não gostam de te ouvir cantar. Na verdade, a sua beleza os incomoda. Eles preferem a desafinação ruidosa deles que a sua cantoria. Pensando bem, não se cale. Você os desafia, os intimida, os sacode e os irrita: eles que são pequenos demais. 
Mas cuidado com as serpentes. Essas são ainda mais perigosas: não fazem barulho nenhum e te pegam de surpresa, querendo o seu sangue. Eu sei que é um bom homem e vai logo querer descobrir a serpente como quem descobre vida nova em terra desértica, e vai estudá-la e tirar dela o melhor. É uma pena, no entanto, que serpente não seja tão dócil quanto você, meu amoroso amigo: primeiro elas te matam, e então te abandonam. Na noite só o que se ouvirá são os grilos em festa infindável. Coisa específica de quem não sente dor alguma na morte de um algo tão belo e precioso. Portanto, viva bem. Viva bem, querido. E coma somente dos frutos que te adoçarem os dedos.

Autor: Geraldo Gomes