21 junho, 2016

Roleta do amor

Senti ontem, numa das minhas comuns rotinas de sair à pé do trabalho e ir direitinho para a casa, um frio estranho. Foi um frio passageiro e não era por ser inverno.Passou em mim  assim de relance, durante esta minha entediante trajetória.  Deu volta ao meu  estômago e como se tratasse de uma tempestade, deixou-me com sintomas que podiam até ser uma epidemia. 
Eu sorri para ele e ele sorriu para mim. Senti-me uma boba e continuei a andar em ritmo acelerado com o intuito que aquele frio esquentasse imediatamente.
Ele seguiu-me e eu acelerei ainda mais os meus passos.
Queria escapar de mais uma rodada de uma das maiores roletas da vida: a roleta do amor.
"Será que dessa vez a roleta pára definitivamente?" pensei eu nos intervalos em que olhava para trás e acelerava mais os meus passos.
As minhas mãos tremiam, as minhas pernas estavam bambas, eu quase partia o tacão dos meus tão queridos saltos que usara naquele momento. 
Encontrei então um beco, onde entrei sem hesitar e pus-me encostada à parede a fitar o chão, a espera que ele passasse, com o meu coração quase a sair pela boca. E lá fui eu  toda atrapalhada, sem saber o que fazer e aonde o reencontrar. Estava apenas a seguir a voz do meu coração.
A minha roleta já tinha dado centenas de voltas e o amor nunca se tinha revelado em nenhuma delas.  Eu já estava zonza, meu coração andava às voltas de tanto fracassar.
Descalcei então e pus-me sentada no meio da avenida principal, perante uma fonte de água que eu sempre gostei de apreciar.
Só mais uma volta! — Disse ele ao se aproximar com o seu lindo sorriso que tanto me encantava.
Eu fugia insistentemente do amor, do possível grande amor e ele só me pedia uma oportunidade. Só mais uma rodada na grande roleta.
Aquilo foi como um: " mal sabes tu que pode ser desta".
Podia ser. E foi. A roleta parou naquela posição. Era ele o grande amor que estava entre esse grande "baralho". 
Aproveitei que estava naquela fonte, e em vez de jogar moedas, joguei todo o meu passado amoroso que me impedia de viver novas histórias de amor. É impossível viver o presente, enquanto a alma estiver presa no passado. Feridas saram, a dor passa e o coração se restaura.
Na vida nunca há "fins" . O fim só existe depois dela. Enquanto isso, há sempre a probabilidade daquela centésima vez, ser "a vez". 
 Estou cansada de tentar. — Disse eu antes dele me beijar.
— Continua a tentar. Pode ser na milésima ou na vigésima vez. Só não pares. A tua vida não parou. Ainda estás no teu show. As tuas cortinas ainda não se fecharam. A tua vida ainda dura. Deixa a roleta girar.

Autora: Vanessa Neto